Trovões em relações

Vejam se se identificam com este texto/ prosa/ poema. E comentem.

Vou tentar dormir…

Porque, verdade seja dita, ele é que é o maluquinho da casa. Portanto, alguém que se deve deixar em paz, de preferência evitar, não vá ser ele perigoso ou demasiado chato.

Gozando este estatuto, áureo, de isenção de qualquer responsabilidade, tudo se torna obviamente mais fácil. Até dormir. Até dizer que faço determinada coisa, um esforço, uma aproximação, mas depois não faço nada. Afinal, se ele é um tontinho, nem vai perceber.

A minha vida é importante (não serão todas?). O meus desejos merecem ser realizados (não é igual para os desejos dos outros?). O que é, é o que é, e o que é é que uma pessoa estável, forte e integra sabe melhor do que um doido qualquer. Que nem dormir consegue!

É o que é que eu sei que é!

Embelezo-me em tintas narcisistas, olho ao espelho e vejo os olhos da racionalidade e da razão. Com esses mesmos olhos vejo o maluco; e que visão é! Não dorme, tanto está bem disposto como insuportável, umas vezes quer fazer coisas, noutras só lhe apetece ficar na toca. Maluquinho com todos os critérios, sem qualquer dúvida.

Mas, pelo menos, é um bom trabalhador. Traz dinheirinho para casa, toma conta de crianças, preocupa-se com as coisas da gestão família e da casa. E organiza festas brutais! Não convinha nada agora que ele se passasse (tenho de lhe prometer alguma coisa).

Faz muito sozinho e isso é tão agradável. Nem preciso de nada dizer (o tipo deve intuir como organizar coisas várias). Grande achado! E assim posso relaxar sabendo que as coisas, eventualmente, chegarão ao que eu quero.

O que ele quer? Nem sei bem. O gajo é Maluco. Terá direito aos mesmos quereres, considerado ser uma personagem inferior? Tenho dúvidas. De vez em quando esforço me para lhe dar uma esmola, algo não demasiado exigente: um pancadinha nas costas, um broche ocasional, uma ajuda minha em algo que ele esteja mais aflito. Mas é de low maintenance (o Que quer que isso queira dizer)! Tá-se bem.

Fingo-me afetada, enfim algumas aparências são importantes. Por vezes até escandalizada. Convém de vez em quando.esclarecer a hierarquia de poder: primeiro estamos nós (os saudáveis) e depois os outros (os maluquinhos). È importante que isso fique bem claro.

Por vezes quando o maluquinho, que até trabalha bem e até contribui para a família (senão obviamente já o teríamos despachado) está mais rabujento ou a exigir coisas, é uma verdadeira chatice. É preciso voltar a po-lo no lugar, aí quem pensa que ele é? Faço a cara má número três e talvez até suba o tom de voz ou finjo umas lágrimas; e o rapaz fica desorientado. Já nem sabe o que estava a exigir, apenas que não é para se dirigir assim aos superiores.

Os maluquinhos são uma espécie curiosa. São tão crentes. Dizes que vais fazer assim ou assado, mesmo que sem intenção de o fazer, e os doidos ficam todos contentes, felizes.

Venham daí as Esmolas, precisamos tanto.

Mas esperem meus amigos, isso acontecerá no futuro, com paciência vão ver que nos chegamos mais perto de vocês. E os pobres acreditam em algo que nunca vai acontecer. E assim mantém-se submissos aos saudáveis, o pessoal da boa auto-estima. A hierarquia mantém-se.

Os maluquinhos dão imenso jeito, são facilmente manipuláveis. São extremamente inocentes e crentes. Em dois tempos fazem o que quisermos deles. Aí que bom!

E assim è. A dinâmica que é aquilo que é. Também maluquinhos há muitos. Se se perder um aparece logo outro.

Bom Maluco, vê lá se vais dormir meu animal. Ninguém te fez mal nenhum, isso são coisas da tua cabeça estragada.

E se não dormires, mesmo depôs de 20mg de zolpidem, 1,5 de alprazolam, restos de vinho, masturbacao (sim não penses que os seres superiores se importam com a essa faceta das tuas necessidades libidinosas) e agora com a bomba d whisky. Nada de pensar que amanhã levo a miúda a escola. Tenho coisas mais importantes. Dormiste mal… azar! Dormisses bem. È tão fácil!

Boa noite. Vou tentar dormir, ok?

  • Sim chefe.

Posted Nov 2, 2023, 1:13 AM UTC

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