Ser marxista hoje parece ser mentalmente insalubre.

Discussão

Acredite se quiser, eu já andei por muitos grupos marxistas, inclusive já fui admin de um grupo comunista no Zap, e olha que eu nem sou; o pessoal só gostava de mim por algum motivo. O que se pode notar é que esses grupos vivem infestados de pessimismo, não há projeto de mudança, apenas sinalização de virtude, competição de pureza ideológica e teorias mirabolantes.

Não há planos práticos de ação, muito menos estratégias de transformação social realistas. O que se vê é uma corrida incessante por superioridade moral e ideológica: quem é mais "puro", quem lê mais autores "corretos", quem denuncia mais "desvios revisionistas", quem sinaliza mais virtude. Tudo isso envolto em um academicismo estéril, num ambiente que gira em torno de jargões, dogmas e teorias cada vez mais desconectadas da realidade concreta.

E aí a gente se pergunta: que vitórias tangíveis o movimento comunista obteve no Brasil desde a queda da União Soviética? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Enquanto isso, a direita liberal, ainda que moderadamente, avança. De tempos em tempos, consegue emplacar uma privatização aqui, outra ali. E agora, com a fundação do tal "Partido Missão", vemos uma nova agremiação política capaz de reunir, sob o mesmo guarda-chuva, uma multidão diversa, mobilizada, unida por um discurso de identidade nacional, progresso e ação direta.

E o marxismo? O que resta dele? Meia dúzia de partidos satélites orbitando a figura do PT, enquanto no mundo digital vemos coletivos formados em servidores do Discord que gravitam em torno de streamers de esquerda. Esses influenciadores, por sua vez, podem berrar, criticar, cuspir, ironizar, fazer escândalo contra os governos do Lula mas, no fim das contas, quando chega o período eleitoral, todos eles vão votar no mesmo candidato, vão às ruas com suas camisetas vermelhas, empunhar bandeiras com a estrela do PT, e servir como escudo ideológico contra qualquer crítica vinda da direita ou mesmo do centro.

E quando realmente tentam agir? O ápice do ativismo acaba sendo a organização de uma greve com meia dúzia de trabalhadores mal pagos, lutando para conseguir um reajuste salarial irrisório — algo como 10 reais a mais no salário mínimo. Após muito esforço, desgaste e enfrentamento político, o reajuste sai. Os trabalhadores comemoram com um “URRA” simbólico, fazem uma foto com punhos erguidos e voltam pra casa. Enquanto isso, os bolsonaristas com toda a insanidade que os caracteriza organizam uma invasão à Praça dos Três Poderes com uma disciplina logística assustadora. Levam barracas, água, transporte, sinal de rádio e coordenação, algo que os marxistas sequer sonham em fazer, quanto mais executar.

O marxista moderno parece viver uma ilusão heroica. Ele se vê como um novo Lenin, pronto para liderar as massas rumo à revolução. Mas ele sequer é um Vladimir veja lá o Lenin. Ele não vive numa Rússia czarista, não está no ano de 1917, não conta com um império alemão desesperado por enfraquecer os russos, nem vai ser colocado dentro de um trem lacrado rumo a São Petersburgo com carta branca para incendiar o país com ideias subversivas. Ele está aqui, em pleno Brasil do século XXI, com Wi-Fi instável, brigando em thread de Twitter sobre se Mao leu ou não Hegel.

E mesmo quando, por um lampejo de bom senso, surge a possibilidade de formação de uma frente unificada entre os diversos grupos comunistas e socialistas, eis que o projeto implode por divergências ridículas. Um influencer relevante se recusa a colaborar com outro porque este é um marxista-leninista-aceleracionista da Nona Internacional, enquanto o outro se declara marxista-leninista-titoísta com traços maoístas e simpatias chinesas. O grau de sectarismo e tribalismo é tão elevado que parece que estamos assistindo a uma nova Reforma Protestante: cada racha dá origem a um novo "cânon", cada vaidade pessoal vira um novo cisma irreconciliável.

A verdade é que ser marxista era mais fácil no século XX. Havia, ao menos, revoluções concretas acontecendo: Rússia, China, Vietnã, Cuba, Angola, Nicarágua… Existia sangue, fogo, barricadas, conquista de poder. Havia algo a ser mostrado, algo que provava que a teoria podia se transformar em realidade. E hoje? O que resta como exemplo palpável? Cuba, atolada em décadas de embargo e crise? A Coreia do Norte, símbolo de autoritarismo extremo para o público ocidental? Ou os países do Leste Asiático, como China, Laos e Vietnã, que por mais que tenham origem em revoluções marxistas hoje funcionam com reformas de mercado e dinâmicas capitalistas, com resultados práticos que deixariam Marx sem palavras,

Mas agora vai vir o marxista moderno que se vê acuado pela falta de resultados concretos, que vai vim dizer:
"Ah, meu, é que o socialismo é um projeto de longo prazo, entendeu? Não dá pra julgar agora, tem que pensar historicamente..."

Como se estivéssemos todos vivendo em uma eterna pré-revolução, esperando pacientemente o Grande Amanhã, como se o tempo fosse um aliado eterno e o mundo estivesse suspenso, aguardando o desabrochar da utopia socialista como se fosse uma flor que só desabrocha a cada três séculos.

Mas aí eu me pergunto: longo prazo quanto, exatamente? Porque a desculpa do "longo prazo" já está em circulação desde o século XIX. Já se passaram mais de 170 anos desde o Manifesto Comunista e mais de 100 anos desde a Revolução Russa, e ainda estamos ouvindo que "é cedo demais para julgar os resultados". Ora, sejamos honestos: a longo prazo, estaremos todos mortos — como já dizia Keynes, aliás. O planeta terá passado por novas guerras, pandemias, colapsos ecológicos, revoluções tecnológicas, e ainda assim o militante estará lá, com sua camiseta do Che, dizendo que “agora vai”.

E mais: não são esses mesmos marxistas que passam o dia exaltando os supostos feitos da União Soviética? Não são eles que romanticamente compartilham imagens de fábricas soviéticas, estátuas de Lenin, medalhas de produtividade do trabalhador stakhanovista e gráficos mostrando crescimento industrial entre 1930 e 1960? Que elogiam a alfabetização em Cuba como se fosse a panaceia para todos os males? Que citam o Vietnã como exemplo de resistência popular — mas esquecem que ele hoje é uma economia que abraçou reformas de mercado com vontade?

Se o modelo soviético foi tão eficaz, tão superior, tão exemplar — por que, então, não é replicado com sucesso em nenhum lugar do mundo hoje? Por que os únicos países que ainda carregam a bandeira vermelha o fazem de forma envergonhada, mesclando livre mercado com autoritarismo estatal, enquanto escondem os fracassos sob o manto da propaganda?

Posted Jul 9, 2025, 11:26 PM UTC

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