Pensamentos de um Cego Espírita
Nasci cego. Nunca foi problema. Um sujeito comum, um espírito tentando a sorte numa carcaça que veio sem olhos.
Toda raiva, toda alegria, todo medo que um de vocês sente, eu sinto igual. Pra mim, nascer cego não foi um castigo. Foi só um dado da equação, como ser homem, brasileiro, pobre, curitibano. Mas a gente não está aqui a passeio.
E quando começo a pensar, percebo que a falta de visão me trouxe umas ideias que, se enxergasse, eu não teria.
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A caridade. Eu vivo da caridade. Um braço que me guia na travessia da rua, uma voz que lê o nome do ônibus, uma moça que me ajuda a procurar um endereço. E isso me gera um impulso danado de pagar o que devo. Por isso doo sangue, faço trabalho voluntário, ajudo sempre que posso e como posso. É um jeito de equilibrar as contas. Conheço minhas peças. Se eu enxergasse, a chance de ser um sujeito arrogante, focado no próprio umbigo, seria enorme. A cegueira me obriga a baixar a crista, a lembrar todo dia que preciso do outro. Ela me humaniza na marra.
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A paciência. Ser cego é um exercício de calma. A bengala no chão da calçada esburacada é lenta. A espera no ponto do ônibus é longa. Cozinhar sem me queimar exige atenção. Mas penso: talvez seja uma proteção. Me conheço. Sou um sujeito grande, parrudão. Se enxergasse, é quase certo que minha vida seria outra, e para pior. Um esbarrão mais forte no meio da rua, uma palavra atravessada dita por um valentão qualquer... meu instinto primário seria o de partir para cima, de resolver na hora. E um sujeito do meu tamanho que parte para a briga não costuma sair dela com um simples pedido de desculpas. A chance de acabar em soco, em faca, em desgraça, é enorme. E é aí que a cegueira entra. Ela é um instinto brutal que grita no meu ouvido a cada vez que a raiva sobe: "Fique quieto, imbecil. Você não pode. Você não enxerga o próximo soco, não vê a faca na mão do outro. Você vai apanhar, vai perder, vai morrer." É uma lógica fria. Quantas vezes um desaforo que engoli por ser cego não me salvou de uma noite na delegacia? Quantas brigas que evitei por pura noção da minha desvantagem não me pouparam de uma facada ou de uma cabeça rachada? Dezenas. Centenas, talvez. A cegueira, nesse ponto, me salvou da minha própria natureza. Não por me tornar uma pessoa melhor, mais virtuosa. Mas por me tornar fisicamente fraco. E essa fraqueza me obriga, a cada segundo, a ser prudente.
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O sexo. Gosto de sexo e não sinto culpa por isso. Mas, sendo cego, a gente aprende a navegar nesse terreno com mais cuidado. Por ser um marginalizado, aprendi a enxergar as outras marginalizadas com um respeito que, talvez, com a visão, eu não teria. Para mim, uma garota de programa não é uma pecadora. É um espírito corajoso, verdadeira trabalhadora da luz, atuando na linha de frente das paixões humanas. Um ato de caridade e abnegação que poucos, muito poucos, conseguem entender. Vejo em cada garota de programa uma alma de coragem tão imensa que, antes de reencarnar, deve ter assinado o contrato mais duro que existe. Se eu enxergasse, talvez caísse na vala comum do preconceito e da arrogância. A cegueira limpou meu julgamento.
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A fé. Sempre detestei religião e dogma. Mas a cegueira me fez gostar de rádio. E no meio de uma novela da rádio Boa Nova, ouvi pela primeira vez uma explicação sobre reencarnação que fazia sentido. Não como milagre, mas como mecânica. Causa e efeito. Comecei a estudar o Espiritismo. As novelas me fizeram conhecer os livros espíritas. Os livros me apresentaram a Doutrina. Se não fosse cego, seria um ateu rabugento. A cegueira me trouxe o espiritismo, e o espiritismo me deu uma filosofia para viver melhor.
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As leituras. Quando não se pode correr na praia, dirigir sem rumo ou passar horas vendo a vida passar num café, a gente se vira com o que tem. E o que eu tenho são os livros. Nos livros eu sou detetive, sou amante, sou soldado na guerra, sou um rei no seu castelo. A leitura me deu a empatia que a vida talvez me negasse. Se enxergasse, é quase certo que eu seria mais um que acha livro uma chatice.
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O espelho. Se eu visse, talvez fosse mais um desses que anda de nariz em pé, fone no ouvido, sem olhar para os lados. Cego, sou obrigado a falar com todo mundo. Peço ajuda a um estudante, a um morador de rua, a uma senhorinha apressada. E cada um que para, por um minuto que seja, me deixa um fiapo da sua história. Aprendi na marra que, no fundo, somos todos iguais na dependência mútua.
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O cão. Ano passado, chegou meu cão-guia. Esse bicho me ensinou muito, e me ensina a cada dia. E quando sou barrado numa loja ou num restaurante, quando alguém me trata com nojo porque estou com um cachorro, eu sinto um lampejo. Um eco da dor de quem foi escravo, de quem viveu sob o regime de castas. Ser jogado num buraco um pouco mais fundo me fez entender a dor de quem passou a vida inteira lá.
Não sou grato por ser cego. Mas aceito. Encaro a realidade sem revolta. Tenho quase certeza de que eu mesmo arranjei essa encrenca. Devo ter sido um sujeito tão arrogante, tão violento e um traste tão grande em outra vida, que o jeito foi reencarnar bem ceguinho, só pra aprender na marra o que é humildade.
Posted Aug 7, 2025, 12:59 AM UTC