A risco de soar vira-lata: O estudo da linguística no Brasil é atrasado, retrógrado e dogmático quando comparado ao estudo linguístico gringo
O Português Brasileiro possui o conceito de uma "norma culta" que permeia todos os âmbitos acadêmicos, e o âmbito das Letras deveria ser um dos menos "apegados" à norma culta.
O estudo linguístico é muito mais produtivo como ciência quando ele é descritivo, e não prescritivo.
Estudiosos da língua Inglesa ou Francesa já entenderam que o papel do estudo linguístico não é determinar o que é "correto" e ditar a norma culta de uma língua, pelo contrário. O papel do linguista é identificar a forma que a língua está sendo usada, estudar como esta variação da língua se comporta, estudar sua origem e as características morfológicas dessas mudanças-- não "erros", mudanças. Descobrir que existem regras nesses usos "errados", entender essas regras.
Se um linguista Brasileiro nota que grande parcela da população tá falando "nós vai", ele fica emputecido e triste com a qualidade de ensino da região. Se um linguista gringo escuta grande parcela da população falar "these girls crazy", ele nota que a omissão do verbo "is" é um fenômeno linguístico que possui suas próprias regras e aplicações. Ele nomeia esse "erro" Copula deletion, e passa assim a estudar a língua Inglesa coloquial com todo o respeito da "norma culta" (que, por sinal, é um conceito arcaico na maior parte do mundo. Ditar uma única forma correta da língua é algo primitivo). A deleção da cópula is deixa de ser um erro gramatical. Não é um erro, é uma deleção da cópula. É como as pessoas falam.
Temos inúmeros exemplos: O verbo be habitual (he be eating) é um exemplo clássico.
Todos esses erros são bem entendidos pela população e um linguista respeitável deve estudá-los com todo o respeito de qualquer outra forma linguística. Se uma forma linguística possui suas próprias regras, aplicações e é fácilmente entendido, ela não pode estar errada. É como as pessoas falam. É a língua.
Assim, a língua inglesa se torna riquíssima, com inúmeros dialetos (AAVE, Patois, Pidgin, etc) e todos os pequenos "errinhos" que fazem a língua ser o que ela é são respeitados, estudados, nomeados e dissertados.
Linguístas gringos ADORAM esses erros! Já tive conversas de HORAS com linguistas Americanos sobre o fenômeno do Double Concord ("he don't be doing no shit like that") ou o Done completivo ("He done took the keys out the car"). Foram conversas incrívelmente produtivas e as pessoas com quem conversei adoravam falar sobre esses temas.
Se eu converso com alguém de letras sobre a riqueza linguística de uma frase como "nós não vai de gracinha com tu não", serei recebida com risos e desdém.
Posted Oct 2, 2025, 1:41 PM UTC