A Mentalidade de Carreira Contemporânea e o Desengajamento no Trabalho
Essa semana li alguns artigos relacionados sobre o protagonismo na carreira e o desengajamento no trabalho.
A análise da relação entre mentalidade de carreira e desengajamento no trabalho dos brasileiros entre 2022 e 2025 revela um cenário complexo e paradoxal. O protagonismo de carreira — princípio segundo o qual "o emprego não te pertence, sua carreira sim" — deveria, teoricamente, promover maior engajamento, uma vez que profissionais que se sentem responsáveis por suas trajetórias tendem a investir mais em seu desenvolvimento.
Entretanto, os dados demonstram uma trajetória oposta: o engajamento caiu de 40% em 2023 para 39% em 2025, com o desengajamento atingindo 61% da força de trabalho brasileira. Esta aparente contradição pode ser explicada por três fatores principais:
Primeiro, existe um descompasso estrutural entre as expectativas criadas pela nova mentalidade de carreira e a realidade organizacional brasileira. Os profissionais assumem responsabilidade por suas carreiras, mas não encontram nas organizações as condições necessárias — autonomia, flexibilidade, mobilidade interna — para exercer efetivamente esse protagonismo.
Segundo, a precarização das condições de trabalho e a epidemia de adoecimento mental sobrecarregam os profissionais, minando sua capacidade de engajamento independentemente de sua mentalidade de carreira. Com 470 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, o problema transcende questões de gestão de carreira.
Terceiro, a mudança de mentalidade ocorreu mais rapidamente entre os profissionais do que a transformação das estruturas organizacionais. As empresas reconhecem discursivamente a importância do protagonismo profissional, mas ainda operam com modelos de gestão hierárquicos e rígidos que limitam a autonomia.
O custo deste desalinhamento é significativo: R$77 bilhões anuais para a economia brasileira, além de impactos imensuráveis na saúde mental e na qualidade de vida dos trabalhadores. Para que o protagonismo de carreira se traduza em maior engajamento, é necessário que as organizações evoluam para além do discurso, implementando mudanças estruturais que permitam aos profissionais exercer efetivamente a gestão de suas trajetórias dentro do ambiente organizacional.
A correlação entre mentalidade de carreira e desengajamento não é, portanto, direta ou causal, mas mediada por variáveis organizacionais e contextuais. O desafio para os próximos anos será construir ambientes de trabalho que acomodem genuinamente o protagonismo profissional, transformando potencial fonte de conflito em motor de engajamento e produtividade.
Posted Nov 1, 2025, 7:57 PM UTC