O sensacionalismo midiático está deturpando o conceito de feminicídio.

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Calma, vamos guardar as garras um instante, hum?

Não é segredo para ninguém que o Brasil é um país violento. Segundo dados amplamente divulgados pela imprensa, cerca de 90% dos casos classificados como feminicídio no Brasil são cometidos por maridos e ex-maridos. Esse título, inclusive, costuma ser restritivo demais, pois na prática envolve qualquer vínculo afetivo com homens. A mesma pesquisa mostra que apenas 2,6% desses homicídios foram praticados por homens sem relação conhecida com a vítima. Em números absolutos, isso representa aproximadamente 27 mulheres mortas em 2019 provavelmente por contratados ou desconhecidos, no pior cenário interpretativo.

Agora, pense comigo.

Se a esmagadora maioria dos feminicídios ocorre dentro de relações afetivas, como sustentar que esses crimes representam essencialmente ódio à condição feminina no sentido psicológico e individual? Até faz sentido que ele seja uma violência sistêmica, afinal, não vou negar que a biologia privilegia o homem na capacidade de coação e que, por isso, a lei precisa ter um cuidado especial com esse tipo de crime.

O problema é que o termo feminicídio, no modo como costuma ser apresentado pela mídia, parece carregar a ideia de que o homem agride a mulher por puro machismo e que se ele não fosse machista, ou na situação hipotética da sociedade não ter tido um histórico patriarcal, o crime não seria tão recorrente, o que eu particularmente descreio.

O homem violento e possessivo que mata sua parceira nem sempre é machista. Isso pode ser verdade, mas também ele pode estar consumido por ciúmes, sentimento de raiva de traição, frustração pelo término ou medo de abandono. Esses sentimentos também podem existir em mulheres, tanto em relacionamentos tradicionais quanto homossexuais, embora os crimes de autoria feminina se manifestem em menor grau e de outras maneiras. Quando existe um terceiro envolvido, ele também costuma ser alvo do crime. Quando não existe, a motivação permanece relacional, e não doutrinária.

Nada disso diminui a gravidade da violência contra a mulher. A questão é outra:

Por que não chamar o crime pelo que ele é, homicídio, e esclarecer de forma objetiva as motivações reais que levaram ao ato do crime e agravar a pena de acordo?

Afirmar que o homem matou simplesmente em razão da condição do gênero feminino produz uma conclusão potencialmente falsa e reducionista. Leva o público a acreditar que o agressor é necessariamente um misógino completo, além de alimentar um discurso nocivo à imagem global dos homens, polarizando ainda mais homens e mulheres na sociedade, quando na verdade, o agressor era apenas um assassino ressentido.

Posted Dec 4, 2025, 9:51 PM UTC

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