Sintético

Poema Autoral

Longe daquilo que me corrói, o alívio imediato deu lugar a um vazio familiar que me força a olhar para dentro. O alento de paz e plenitude agora me sufoca.

Não há mais remédio para a dormência programada. Há somente uma realidade cortante que agora tento esconder a mãos nuas. Eu sinto as feridas, mas elas não doem.

É um desespero silencioso interrompido apenas pelos pedidos de socorro que vazam através das notas precisamente irradiadas pela minha laringe.

O gosto amargo da ausência só é quebrado pelas gotas salgadas que escoam até minha boca.

Posso ver a escuridão tomar conta do perímetro da minha visão. Entretanto ela não avança. Ela se mostra. Um bilhete ilegível cujos traços e curvas compreendo bem.

Meus pés descalços se desviam das pedras pontiagudas, mas caminham em direção ao precipício.

O aroma de lavanda e controle é ofuscado pelo cheiro da chuva que cai lá fora e me conforta.

É como inalar partículas úmidas de vida em um deserto de mármore e vidro. Elas mantém meu fôlego até a tempestade passar.

O suor deslisa sobre a minha pele fazendo o brilho de minha exaustão se destacar em meio à penumbra.

Eu recolho os estilhaços de alma, que penetram fundo a minha carne. O frio anestesia a dor, porém aos poucos drena a vida.

Meu corpo se ergue ao som das aves que reverbera no espaço oco, enquanto a luz escorre pela fresta da saída.

A passagem parece estreita e as paredes me agarram pelo caminho.

O calor me abraça, mas a claridade me despe e queima.

Então eu corro. Corro contra o tempo.

Contra os outros.

Mim mesmo.

Até me dar conta que nunca estive tão perto de onde saí...

Posted Dec 7, 2025, 10:56 PM UTC

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