O bodybuilding é homoafetivo e é uma fantasia de poder masculina
E esses traços tão frequentemente usados como críticas, o tornam culturalmente fascinante. O bodybuilding, entre os homens mais conservadores, costuma ser rechaçado por "ser gay", seria estranho o ato de observar homens musculosos, elogiar seus físicos e admirá-los. Entre diversos progressistas, o bodybuilding seria desmerecido por perpetuar a imagem do homem musculoso como símbolo de poder, é o entreter do corpo forte como símbolo de dominação, superação e alguma vitória social. Eu gostaria de reconhecer o valor das duas críticas enquanto nego a avaliação moral que as duas realizam. Isto é, "ser gay" está correto, assim como ser uma fantasia masculina, e não há qualquer conteúdo moral digno de crítica nessas duas avaliações.
A crítica quanto ao caráter homoafetivo é inteiramente verdadeira. O bodybuilding é o reconhecimento do corpo masculino alheio como belo, esteticamente interessante, lapidado pelo esforço do outro, perpassa pelo reconhecimento de outro homem como belo e digno de admiração pelos resultados alcançados. Esses traços comportamentais não são comuns quando são mediados por avaliações do corpo de outro homem. Essa admiração por outros homens sempre existiu, ela não existia, no entanto, enquanto mediada pela admiração do corpo musculoso de outro homem. Ela existia mais em abstrato através de demonstrações de poder monetário, fama ou até mesmo violência. O bodybuilding altera a via dessa admiração, ela passa a ser pela estética do corpo. Essa homoafetividade vai além, ela está no cuidado de um homem com relação ao outro durante seu treino, no senso de comunidade e pertencimento, nos elogios, cultiva uma intimidade física (o toque, o elogio público, a quase nudez comparativa), cultiva uma celebração na vitória alheia de forma menos ressentida... É uma expressão de masculinidade mais afetiva. Além disso, se o bodybuilding fosse homoafetivo no sentido exclusivamente sexual, isso também não seria problema algum. O que eu quero apontar é que ele propicia um ambiente de homoafetividade masculina bastante rica e digno de celebração. Há a possibilidade física com o corpo de outro homem sem que haja a sexualização.
A crítica quanto a ser uma fantasia de poder masculina, também é inteiramente verdadeira. Ela é, contudo, trivial por reconhecer poder como inerentemente negativo, destrutivo ou violento. O músculo celebrado enquanto expressão de masculinidade, no bodybuilding, não é violento, não é um músculo construído com o intuito de ferir o outro, não é construído com o intuito de dominar o outro, não é construído enquanto poder coercitivo. É poder estético, poder que demonstra sua força na sua aparição e admiração incitada pela sua aparição, sua aparição ao mundo é seu próprio poder. Ele opera mediante seu volume, sua textura, sua simetria, não pela destruição em potencial que pode causar. Ele é símbolo de poder construtivo, ele surge enquanto expressão da nossa própria potência de agência, disciplina e experimentação. Ele é resultado de uma prática que nos faz bem sem que tenhamos esse prazer necessariamente ancorado no sofrimento alheio. O próprio processo de construção, apesar de desgastante, é prazeroso. A expressão de masculinidade, tão ancorada em poderes destrutivos e violentos, como a guerra, armas, agressões; tem a possibilidade de se assentar numa expressão de poder construtiva, não violenta e fortemente associada numa comunidade de afetos de diferentes pessoas (não apenas homens). A celebração da força não precisa ter como resultado a infelicidade de outros, não precisa ter como resultado a destruição do outro. Podemos expressar a masculinidade — e é masculinidade mesmo, pois o que poderia ser mais masculino do que os corpos desses que se identificam como homens? — através desse poder estético dos músculos. Temos o potencial de nos livrarmos da violência como identidade.
Eu não falo do que o bodybuilding é, falo mais do que ele pode ser, porque reconheço que há o problema dos PEDs e o problema da normatividade de um corpo musculoso como O CORPO que todos deveriam ter, ideia de que não endosso. Reconheço, também, que o bodybuilding femino é sim muito digno de valor, só que meu texto se direciona mais ao homem e o bodybuilding. As mulheres e o bodybuilding compartilharão parte das teses que trouxe e terão suas próprias particularidades relacionadas às suas condições de mulher, o mesmo vale para as diferentes pessoas em suas mais variadas formas de existir (como PCDs, trans e nb).
Posted Dec 10, 2025, 2:51 AM UTC