A Ilusão de uma Vida Bem Vivida (A Morte de Ivan Ilitch)

Citação

“O que é que tu queres?”, foi a primeira coisa que ouviu, claramente.
“O que é que tu queres? O que é que tu queres?”, repetiu a voz.

E respondeu:

— O que eu quero é viver. Viver sem sofrer.

E novamente prestou atenção, tão concentradamente que nem a dor o desviava.

— Viver? Como? — perguntou a voz interior.
— Ora, viver como sempre vivi. Bem, agradavelmente.
— Como viveste antes, bem e agradavelmente? — tornou a voz.

E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos da sua vida.
Mas coisa estranha: tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.

Na meninice, sim, havia certas coisas verdadeiramente prazenteiras, que gostaria que se repetissem se pudesse viver outra vez.
Mas aquele menino estava morto; era como a reminiscência de uma outra pessoa.

Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo o que lhe parecera ser alegria se desmoronava ante seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil.

E quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera lhe pareciam insignificantes e vazias.

A começar pela faculdade de direito.
Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade, as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornavam raros.

Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozara alguns belos momentos: amara uma mulher.
Em seguida, tudo se embrulhou, e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos.

Veio o casamento — um mero acidente — e, com ele, a desilusão:
o mau hálito da esposa, a sensualidade, a hipocrisia.

E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro…
e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos.

E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola.

— É como se eu estivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isso.
Perante a opinião pública, eu subia; mas, na verdade, afundava.
E agora cheguei ao fim: a sepultura me espera.

Posted Jan 31, 2026, 1:39 PM UTC

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