O mercado do amor
A tábua grossa e imaculada
Mantinha-se firme no mármore
A lâmina escura, aguçada
Sobrevoava a minha carne
O avental branco amarrotado
Logo ficou ensaguentado
E depois preto e depois roxo
Do forte golpe do machado
Assim um pouco atordado
Meio vivo, mas meio morto
Vi sendo do peito arrancado
A essência do meu sufoco
"Aos cubos" pediu ela então
E foi como levar um soco
O comerciante acenou
E no alvo se concentrou
A faca caiu com estrondo
Na tábua firme e imaculada
E lá se foi meu coração
Roubado pelas tuas mãos
Aquela faca ensaguentada
Que meu peito tinha rasgado
Foi enxugada no avental
Desse comerciante do mal
"Pode deitar fora os olhos
Que ele já não vai precisar"
O talhante obedeceu e
Começou logo a esquartejar
"Quero os testículos inteiros
Para pendurar no meu carro
Esse pénis murcho, pequeno
Darei a algum cão rafeiro"
O machado caiu na tábua
Separando o mar vermelho
Sangue escorreu em vez de água
Amor novo vira ódio velho
"As pernas já de nada servem
Nunca mais elas vão correr
Seus braços fracos, paralíticos
Já não me conseguem prender
Os lábios que eu saboreei
Os pulmões cujo ar suguei
Farei com eles uma sopa
Assim nunca te esquecerei"
Quarenta euros e noventa
Disse o Cupido, dando o saco
A mulher pagou com cartão,
E saiu com o meu coração
"Seguinte" gritou o demónio
"Senha número sessenta e seis"
Uma mulher chegou à frente
Outra reclamou ser sua vez
Eis que desataram à bulha
Mesmo ali no meio do talho
Cupido, desinteressado
Habituado, nada fez
Ele afiou a grande faca
Posicionou melhor a tábua
Ajeitou o avental encarnado
Tirou mais um corpo da maca
Enquanto as mulheres lutavam
Outras tomaram o seu lugar
Trabalho é o que não faltava
Ali no mercado do amor
O negócio estava a bombar
E para sempre iria estar
Até que aprendessem a amar
Seguiriam escravos do rancor
Enquanto confudissem posse
Com o que se chama respeito
Amar seria uma guerra
Travada num jardim sem flor
Posted Feb 14, 2026, 8:07 AM UTC