Conflito, harmonia e complexidade — afinal, qual a relação entre Igreja e Ciência?
Salve, galera.
Nos últimos dias, a discussão da relação entre a Igreja e a Ciência, especialmente no que tange ao período medieval, ganhou um espaço considerável aqui. Eu mesmo participei e, em alguns momentos, reconheço que fui inclusive mais incisivo do que deveria, mas as discussões serviram a acender um alerta: afinal, quem aqui tem alguma noção de como esse percebido conflito se organiza no estudo da história? É com essa finalidade, então — entender a história da percepção da relação entre Igreja e ciência — que redigi esse primeiro tópico. Minha intenção é montar uma série de tópicos, mas confesso que o tempo tem andado curto e esse, possivelmente, será o único.
A quem é mais avesso a leituras longas, fica um breve "TL;DR":
- A visão de total incompatibilidade e hostilidade entre as duas popularizou-se no final do século XIX, na disputa de autoridade entre os cientistas profissionais e a Igreja, criando, nesse momento, por meio de diversas mentiras sobre a Idade Média, a "Tese do Conflito";
- A visão de total compatibilidade entre os dois, mais recente, busca apontar a Igreja Católica como uma facilitadora do saber científico na Idade Média, preservando saberes e textos, fornecendo espaços de conhecimento e patrocinando a produção científica, a "Tese da Harmonia";
- A visão — que eu, particularmente, adoto — de que a relação entre a Igreja e a Ciência é cheia de nuances e evidências complexas, com a Igreja tendo, ao mesmo tempo, oferecido espaço para o saber científico e colocado entraves em sua produção, definindo limites para sua expansão e ao mesmo tempo dando condições que permitiram sua continuidade, a "Tese da Complexidade".
Aos que se interessarem por fontes, as colocarei ao final do texto. O pensamento mais organizado vem, então, após a linha horizontal. A quem permaneceu até aqui e pretende perseverar, boa leitura!
Ao final do século XIX, a ciência via-se em conflito aberto com a Igreja. A profissionalização do cientista e a produção do saber científico desafiavam a autoridade que até então a Igreja havia exercido sobre a legitimidade do saber. Nesse contexto, em um mundo onde de repente discutia-se "A Origem das Espécies" e as inovações avançavam a mil, sofrendo as pesadíssimas mudanças da segunda revolução industrial e da consolidação de fato das burguesias nacionais, surgem, então, os nomes de John William Draper e Andrew Dickson White. Os dois intelectuais defendiam uma total impossibilidade de conciliação entre o saber científico e a Igreja, um estado de hostilidade perpétua e imutável — e seria necessário, então, à ciência, livrar-se das correntes que lhe eram impostas pela Igreja. A fim de dar forças à argumentação e acelerar esse processo, Draper e White realizaram então uma revisão da história medieval: construíram, cuidadosamente, uma narrativa quanto a "mil anos de escuridão", um período no qual o saber científico viu-se impossibilitado de avanço e durante o qual o obscurantismo religioso teria sustentado práticas e entendimentos toscos, como a crença em uma Terra Plana, a proibição do estudo de cadáveres ou ainda a fabricação de mártires como Hypatia e Giordano Bruno. Hoje, é sabido e abordado na história — e é consenso entre quaisquer historiadores sérios — que a análise de Draper e White foi sombriamente realizada com o objetivo calculado de criar e estimular uma total separação entre os campos, usando, para isso, de mitos fabricados, e que, portanto, essa "Tese do Conflito" não tem espaço sério na historiografia. Isso não significa que não haja quem busque produzir saber dentro dessa lógica: ainda há, mas esses autores são, por motivos óbvios, alvo de duras críticas e descrédito nessa parte de suas análises.
A análise de Draper e White acabou por estimular resposta oposta, partindo de figuras consagradas como Pierre Duhem e presente nos primeiros trabalhos de David C. Lindbergh, no que chamaremos de "Tese da Harmonia". Se para os autores do parágrafo anterior a Igreja havia criado um espaço hostil ao saber científico, Duhem e Lindbergh retratam o oposto: a Igreja medieval teria possibilitado o saber, patrocinando e incubando a produção científica da época. Vem aqui o resgate da "doutrina dos Dois Livros" encabeçada pela Escolástica, onde a verdade divina se apresentaria pela Bíblia e pelo entendimento do mundo natural, com a Igreja sendo a catalisadora das universidades medievais e provendo estruturas e recursos para o fazer científico. A Igreja, de fato, tinha um interesse na produção científica — era necessário o domínio da astronomia, por exemplo, para a produção de calendários capazes de determinar com precisão o período pascoal —, mas a visão da Igreja enquanto parceira e cuidadora da ciência é uma hipercorreção; é necessário cuidado, na análise, para, ao criticar a visão de um autor, não se criar apenas um espantalho oposto. Draper e White trouxeram críticas válidas à Igreja, e Duhem e os primeiros trabalhos de Lindbergh também levantam excelentes pontos quanto ao papel da Igreja na produção científica. Se faz necessária, então, uma terceira perspectiva.
É na contemporaneidade e nos trabalhos de autores como John Hedley Brooke, Ronald Numbers e Peter Harrison que surge resposta adequada à binaridade proposta pelas teses anteriores. A relação entre Igreja e ciência não pode ser reduzida à simplicidade de um modelo "conflito-harmonia", pois envolve toda uma teia de interesses e contextos que vão da política aos costumes e sociedade, passando pela manutenção do próprio status quo. A Igreja, mais do que qualquer papel científico, tinha o poder hegemônico de uma perspectiva política: a ciência, quando alinhada a seus interesses ou ao menos não oposta a eles, via-se sim estimulada, mas, ao ameaçar a ordem social ou desafiar o monopólio da religião sobre a realidade, colocava-se em atrito com a ordem das coisas. Dessa forma, a análise não se faz no campo da incompatibilidade entre ciência e religião enquanto dogma, mas sim no campo da autoridade. É por isso que vemos tantas evidências conflitantes, como, por exemplo, simultaneamente, o financiamento de observatórios astronômicos na Europa e a criação do Index Librorum Prohibitorum.
Em conclusão, faço das palavras de John Hedley Brooke as minhas: nenhum historiador sério deveria ainda sustentar a "Tese do Conflito". E cabe, também, o cuidado com o anacronismo: querer discutir uma perseguição da Igreja à ciência organizada no medieval é não entender que, na Idade Média, a separação entre Igreja e ciência não existia da maneira como a vemos hoje.
Para uma análise mais aprofundada, seria interessante que partíssemos para casos de estudo, como o julgamento de Galileu, os Julgamentos de 1227 ou, ainda, o famoso caso de Roger Bacon; o tópico, no entanto, já está longo, e fica aqui o convite à discussão. Havendo interesse, trago mais em outra publicação.
Forte abraço e boa leitura!
Fontes sugeridas:
- Science and Religion: Some Historical Perspectives — John Hedley Brooke;
- The Beginnings of Western Science — David C. Lindbergh;
- Galileo Goes to Jail and Other Myths about Science and Religion — Ronald Numbers;
- The Foundations of Modern Science in the Middle Ages — Edward Grant;
- The Territories of Science and Religion — Peter Harrison;
- History of the Conflict between Religion and Science — John William Draper;
- A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom — Andrew Dickson White;
- Le Système du Monde — Pierre Dunhem.
EDIT: Arrumei o markdown para o uso correto das linhas horizontais!
Posted Feb 19, 2026, 3:51 PM UTC · edited