O mapa que não olhei
Sei que carregas um mapa nas dobras da alma,
desenhado não com tinta, mas com o peso
de escolhas que fizeste em silêncio,
de estradas que não tomaste por cuidado,
de muros que ergueste com as próprias mãos
para que um jardim, lá dentro, pudesse florir sem vento.
Mas digo-te agora, enquanto a noite se adensa:
quem viveu tanto a proteger o chão
esqueceu-se, talvez, de olhar para o céu.
Não o céu dos deuses ou dos poemas,
mas o teto do teu próprio quarto,
onde a fissura que tentaste cegar com cal
ainda deixa passar um fio de luar.
Dói saber que carregas o mundo como uma concha carrega o mar:
guardando um som imenso num espaço tão pequeno.
Dói saber que te ensinaram a ser forte
antes de te ensinarem a ser gente,
que a tua espinha se tornou uma pergunta
enquanto o resto do corpo era só resposta.
Mas escuta:
não há mapa que valha a pena se não tiveres
a coragem de o perder.
Não há casa segura que não tenha
uma janela aberta para o temporal.
E tu, que tanto sabes de tempestades,
esqueceste como é dançar na chuva,
como é sujar os pés de lama
e chamar a isso vida.
O que procuras já está em ti,
não como um destino, mas como uma semente
que só germina se regada com o medo
de nunca chegar a ser árvore.
Por isso, agora, pergunta ao espelho:
se amanhã o medo acabasse,
que sonho antigo ousarias lembrar?
E depois disso, pergunta mais fundo:
se o sonho fosse impossível,
que pequeno passo darias, assim mesmo,
só para sentir o chão a mover-se debaixo dos pés?
Não respondas. Vive.
E deixa que a pergunta, ela sim,
seja a tua única certeza.
Posted Feb 22, 2026, 5:00 PM UTC