“Primeiro dia de Verão no Brasil" - 𝐗𝐗𝐈 Capítulo 2 _ Dívida de Sangue
Capítulo 2 — Recado Talhado na Carne 🥀'•`~√ | 📖
A escuridão envolveu Anápolis como um manto viscoso de terra molhada e fumaça distante, mas Leonardo Lisandro despertou do breve descanso que se seguira à maratona de exercícios brutais. O corpo ainda carregava o fogo interno dos movimentos repetidos até o limite — sequências de giros com corrente pesada, impactos contra pneus velhos amarrados no teto, saltos explosivos e torções que testavam cada tendão. Costelas latejavam em ondas quentes, o corte no braço repuxava a pele cicatrizada, hematomas antigos ganhavam tons mais profundos de azul-escuro. Ele se ergueu do piso frio, respiração medida, olhos âmbar fixos na parede rachada.
*Eles estão mandando sinal. O Lucas... o mais fraco do grupo. Isso é pra me tirar do eixo. A Força Jovem sabe meu nome agora. Mas eu calculo. Eu espero. O filho daquele homem vai aparecer quando a hierarquia sangrar o suficiente.*
Vestiu primeiro a camada oculta: uma malha justa de tecido tático negro, manga comprida e perna ajustada, com placas finas de polímero denso costuradas em pontos estratégicos — cotovelos, rótulas, ombros, costelas flutuantes e região lombar baixa, onde chutes ou quedas poderiam fraturar órgãos. Proteção quase invisível, leve como segunda pele, capaz de absorver parte do impacto sem restringir velocidade. Por cima, o uniforme escolar comum: camisa branca de algodão áspero abotoada até o peito, calça cinza-escura folgada o suficiente para movimentos rápidos, tênis pretos já gastos. Ajustou a máscara de pano escura sobre o rosto, domou os cabelos volumosos em ondas curtain que caíam sobre a testa, e saiu.
No beco estreito, a moto elétrica aguardava — modelo básico de entrada, a opção mais em conta do mercado, mas para ele uma obra de linhas imponentes: quadro reforçado em aço pintado de preto fosco com reflexos sutis, rodas largas de aro generoso, farol LED angular que cortava a penumbra como lâmina afiada, banco elevado e guidão largo que transmitia presença. Motor silencioso, torque imediato, bateria confiável. Ele a via como uma aliada feroz, discreta e bela na simplicidade brutal. Colocou o capacete integral fosco, girou a ignição. O zumbido baixo cortou o silêncio enquanto acelerava pelas ruas ainda sonolentas, vento frio infiltrando-se pelas frestas do capacete.
Ao cruzar os portões enferrujados da Escola Estadual Anápolis Central, o pátio inteiro parou. Alunos de todos os anos interromperam conversas, cabeças virando em massa. Assim que ele desceu da moto e removeu o capacete, o burburinho explodiu em onda de palmas e gritos roucos.
Aluno de regata rasgada — “Lisandro! Tu acabou com os Lobos ontem! Aqueles filhos da puta cobravam pedágio na cantina há dois anos inteiros!
Garota de cabelos longos e cacheados — “Você desmantelou a gangue que mandava nas salas e aterrorizava o bairro inteiro! A gente tá livre agora graças a você!
Grupo de garotas do segundo ano cercou a moto, olhos arregalados, vozes misturadas em admiração.
Garota ruiva — “Olha o tamanho desses braços... e ainda com cicatriz no olho. Tu é tipo herói de rua de verdade!
Outra de uniforme desabotoado — “Rei novo da Central! Quebrou quinze de uma vez e nem suou direito!
Os elogios choviam como granizo: “Hierarquia mudou de verdade!”, “Melhor que qualquer torneio underground!”, “As classes agora respiram graças a você!”. Ele sentiu o rosto esquentar sob a máscara, um desconforto raro subindo pela nuca. Sem graça, cabeça baixa, ombros tensos, ignorou cada toque tentado, cada celular apontado, cada grito de admiração. Passos firmes abriram caminho pela multidão que se afastava respeitosamente, direto para a sala 3-A.
Sentou no canto habitual, mochila jogada ao lado, visão periférica varrendo o ambiente. Seu Ronaldo entrou logo depois, corpo volumoso de ex-lutador ocupando o espaço, voz grave ecoando enquanto ligava o projetor.
“Seu Ronaldo — “ Hoje é teoria pura, seus moleques. Anatomia humana aplicada a confrontos reais. Como um impacto no fígado para a respiração, como a mandíbula absorve força, onde a costela flutuante quebra mais fácil. Quem prestou atenção na bagunça de ontem no corredor já sabe do que estou falando.
Os diagramas surgiram na parede: ossos destacados em vermelho, setas mostrando ângulos de ataque, músculos contraídos em tensão. Leonardo ouvia atento, mente ligando cada explicação aos próprios movimentos da noite anterior, aos pontos que ele protegia agora por baixo do tecido. Mas a cadeira ao lado permanecia vazia. O lugar de Lucas.
“Leonardo Lisandro — “ Cadê o Lucas?
Yago Yuri virou o corpo pesado, anéis dourados refletindo a luz fraca.
“Yago Yuri — “ Não faço ideia. Sumiu depois da pizzaria ontem. Achei que tinha ido dormir cedo.
Nathanzin cruzou os braços grossos, expressão séria.
“Nathanzin — “ Ele nunca falta sem avisar. Isso tá estranho.
Gabriel empurrou os óculos fundo de garrafa, dedos já no celular.
“Gabriel — “ Nenhum sinal online. Última localização perto da escola, mas parou de responder.
Ivan mexeu nervoso nos cabelos brancos.
“Ivan — “ Talvez pegou gripe depois da chuva de ontem.
Guilherme apenas deu um grunhido baixo, beiço tremendo sem emitir som.
Ninguém sabia. A aula seguiu, diagramas sucedendo diagramas, voz de Seu Ronaldo preenchendo o ar com termos técnicos. Então o celular de Leonardo vibrou contra a coxa. Número bloqueado. Ele abriu discretamente sob a carteira.
A imagem carregou em alta definição.
Vivian Parque, periferia leste, terreno baldio ao anoitecer com bancos de concreto quebrados e árvores retorcidas. Lucas estava de joelhos na terra vermelha úmida, corpo magro nu da cintura para cima, pele pálida transformada em mapa de violência. Rosto inchado até quase irreconhecível — olhos fechados por inchaços negros e roxos profundos, lábio superior rasgado em dois lugares com sangue coagulado formando crostas grossas, nariz torto e sangrando em filetes finos que escorriam até o queixo. No peito magro, letras talhadas fundo com lâmina afiada ainda vazando fluido vermelho vivo: “PORCO IMUNDO”. Na barriga côncava, mais cortes irregulares formando “FRÁGIL DE MERDA”, sangue fresco escorrendo pelas curvas das letras como tinta derramada, pele aberta expondo carne rosada. Braços torcidos para trás, marcas de corda queimando pulsos e antebraços.
Ao fundo, parcialmente em sombra mas cristalina, Priscilla de pé, virada de lado, retocando o batom vermelho-sangue com um espelhinho de mão, lábios entreabertos em sorriso satisfeito. Ao redor dela, silhuetas vestindo moletons e jaquetas verde-musgo — a cor inconfundível da Presas da Força Jovem.
Leonardo trancou o maxilar até os dentes rangerem, respiração controlada em inspiração lenta pelo nariz. Mãos firmes sobre o celular. Nenhum músculo do rosto traiu a fúria que queimava por dentro.
Vivian Parque. Lado oposto da cidade. Eles escolheram terreno aberto pra dificultar aproximação. Roupas verdes confirmam. Priscilla estava lá... assistindo ou participando. Não importa. Eu vou sozinho. Eles querem guerra de verdade. Vão ter.
Guardou o aparelho sem mostrar a ninguém. A aula continuou por mais quarenta minutos intermináveis, Seu Ronaldo explicando agora sobre recuperação de lesões em articulações. O sinal final tocou. Do lado de fora, o céu havia escurecido completamente, nuvens negras baixas carregadas de eletricidade. Cheiro de chuva forte invadia pelas janelas quebradas, vento úmido balançando as árvores do pátio.
Ele levantou devagar, mochila no ombro, passos medidos. Os manos olharam, mas ele não explicou nada. Apenas saiu.
No estacionamento, montou novamente na moto elétrica. O primeiro trovão retumbou distante quando ele girou a ignição. Gotas grossas começaram a cair, batendo no capacete como projéteis, transformando o asfalto em espelho escorregadio de lama vermelha. Farol cortou a cortina d’água enquanto acelerava rumo ao outro lado de Anápolis.
A noite havia chegado cedo, carregada de tempestade. A chuva só piorava o cenário — visibilidade zero, ruas transformadas em rios de barro, vento uivando entre os postes. Mas ele seguia, corpo inclinado contra a força da água, mente já calculando distâncias, possíveis emboscadas, ângulos de ataque no parque escuro.
O verdadeiro round estava prestes a começar.
E ele chegaria exatamente como eles queriam: sozinho, molhado de chuva e pronto para quebrar ossos.
A chuva de Anápolis caía em lâminas grossas, transformando a estrada de terra do Vivian Parque num rio vermelho de lama que grudava nos pneus da moto elétrica. Farol cortando a cortina d’água, Leonardo Lisandro reduziu a velocidade ao avistar o portão de ferro alto, lâminas douradas no topo. Não era parque. Era mansão. Uma fortaleza de concreto branco e vidro blindado erguida no meio do nada, com uma estrada particular que serpenteava até um rancho iluminado por holofotes a quinhentos metros adiante. Posto de gasolina privativo à esquerda, com bomba de combustível cromada e, absurdamente, um McDonald’s exclusivo para convidados — arcos dourados brilhando na tempestade, cheiro de fritura misturado ao ozônio da chuva.
Dois capangas em terno preto impecável surgiram da guarita, pistolas .45 apontadas direto para o capacete dele. Gotas escorrendo pelo cano.
“Capanga 1 — “ Desce da moto devagar, mascarado. Mãos onde eu veja.
Ele obedeceu. Capacete removido, cabelos curtain encharcados colados na testa, máscara preta pingando. Escoltado pelos canos frios encostados na nuca, atravessou o pátio de paralelepípedo. O lugar fervilhava: no mínimo cinquenta e quatro integrantes da Presas da Força Jovem, moletons verde-musgo encharcados, correntes grossas no pescoço, alguns com facões à mostra. Cercados por mais vinte seguranças de terno, coletes à prova de balas sob as jaquetas. Todos armados.
No centro do pátio, sob um toldo iluminado, o governador do estado de Goiás em pessoa. Cabelos grisalhos penteados para trás, terno azul-marinho sob medida, rosto bronzeado e sorridente como em campanha. Ao lado dele, o filho — loiro, magro, olhos vazios de quem nunca sentiu consequência.
“Governador — “ Leonardo Lisandro. O lixo de Anápolis que subiu rápido demais. Veio atrás de mim... ou do meu menino aqui? Aquele roubo há seis meses. Seu avô na nuca. Seu irmão em coma em São Paulo. Coisas que acontecem quando se cruza o caminho errado.
Leonardo parou a cinco metros. Chuva escorrendo pela máscara, olhos âmbar frios.
“Leonardo Lisandro — “ Sim.
Sem mais. Sem tremor na voz. Apenas confirmação calma, como quem marca um compromisso.
Na varanda elevada da mansão, Priscilla observava. Cabelos ondulados soltos, agora secos e arrumados com os dedos, batom retoqueado, corpo envolto num robe fino de seda preta que a chuva não alcançava. Ela sorria de canto, sem dizer palavra.
O governador acenou. Um vulto enorme saiu da sombra.
Subtenente André Mendes, da tropa de choque. Quase três metros de altura, armadura tática preta reforçada com placas de cerâmica, capacete de motim com viseira espelhada. Braços grossos como troncos, músculos que esticavam o kevlar até o limite. Nas mãos, soco-inglês de titânio customizado, pesos internos.
Sem aviso. O golpe veio como marreta de demolição — um overhand direito perfeito, velocidade absurda para o tamanho, trajetória impecável. Leonardo viu o arco, mas não teve tempo de reagir. Impacto direto no peito. O som foi oco, como madeira rachando. Costelas trincaram em cadeia. Ar explodiu dos pulmões. Corpo dele voou dez metros como boneco de pano, braços e pernas soltos, máscara rasgando no ar. Bateu de costas contra o container reforçado de aço do posto de gasolina, metal amassando com um estrondo que ecoou até o rancho. O container inteiro tombou de lado, combustível vazando em poça negra misturada à chuva. Dor cegante. Visão branca. Sangue quente subindo pela garganta, escorrendo pelo canto da boca sob a máscara destruída. Costelas quebradas perfurando músculo. Ombro esquerdo deslocado. Visão borrada, quase desmaiando, corpo mole dentro do aço retorcido.
Essa família... o tiro na nuca do vovô... meu irmão tubos na garganta... Lucas agora, cortado como porco... os manos que eu acabei de conhecer... Yago, Nathan, Gabriel... se eu cair aqui, deixo tudo pros outros. Deixo o Lucas sofrer. Deixo o filho desse filho da puta continuar vivo.
O sangue ferveu. Veias incharam como cabos de alta tensão. Músculos contraíram em ondas, pele passando de parda para vermelho vivo, cardiovascularização extrema inundando cada fibra. Olhos âmbar ficaram injetados, bordas vermelhas de capilares rompidos. Aura de vapor subiu do corpo, chuva evaporando no calor interno. Coração batendo a 180 bpm, audível como tambor de guerra. Punhos cerrados até os nós dos dedos estalarem.
Ele saiu do container amassado como explosão controlada. Aço rasgando ao redor. Avanço em linha reta, chão tremendo sob os tênis.
André Mendes girou, soco-inglês erguido.
Os dois socos colidiram no meio do caminho — direto contra direto. O choque foi sísmico. O ar deslocou em onda visível, poeira e lama explodindo em círculo de três metros. Janelas da mansão racharam. Carros próximos balançaram nas suspensões. A luva tática de André explodiu em pedaços de kevlar e titânio, metal voando. O soco de Leonardo acertou o antebraço blindado do subtenente, placa de cerâmica trincando com som de vidro moído. Dor mútua. Mas nenhum recuou.
Trocação franca começou.
André desferiu um jab esquerdo pesado, Leonardo desviou por milímetros, contra com uppercut no plexo solar. Impacto surdo, armadura rachando, ar saindo do capacete em grunhido. André respondeu com cotovelo giratório — Leonardo recebeu no ombro já machucado, osso rangendo, mas agarrou o braço e puxou, joelhada explosiva na lateral do capacete. Viseira trincou. Sangue espirrou dentro do visor.
Eles trocavam como martelos contra bigorna. Soco no fígado de André — placa amassou, subtenente grunhiu. Chute baixo de Leonardo na coxa blindada — músculo rasgou por baixo. André agarrou a cabeça dele, joelhada no rosto — máscara voou em pedaços, nariz de Leonardo quebrou, sangue quente escorrendo pela boca. Leonardo respondeu com headbutt direto na viseira já rachada — vidro explodiu, corte fundo na testa do subtenente.
Cada golpe era gráfico: pele rasgando, sangue misturado à chuva formando poças vermelhas, ossos estalando, vapor subindo dos corpos superaquecidos. Punhos inchando, juntas sangrando, respirações roucas ecoando entre trovões. Leonardo sangrava de boca, nariz, orelha, costelas perfuradas latejando a cada torção. André tinha o antebraço exposto, carne viva, capacete partido revelando rosto marcado de veterano.
No meio do caos, o governador e o filho foram evacuados. Helicóptero Bell 407 desceu no gramado do rancho, rotores cortando a chuva. Os dois entraram correndo, portas fechando. Máquina subiu, luzes piscando, sumindo na tempestade.
Os militares restantes hesitaram, armas baixas, olhos arregalados. Só André Mendes continuou. Subtenente contra o demônio mascarado que não caía.
Na varanda, Priscilla parou de arrumar o cabelo. Pela primeira vez, o sorriso safado morreu. Boca entreaberta, olhos incrédulos. Ela via a trocação real — não hierarquia de escola, não briga de corredor. Via dois monstros trocando carne e osso sob a chuva torrencial, sangue voando em arcos que a água não lavava. Pela primeira vez, ela sentiu o peso real do que havia ajudado a soltar.
Leonardo cuspiu sangue, olhos vermelhos fixos no gigante à frente.
A noite ainda não tinha acabado.
E a fúria que ele guardava por anos inteiros finalmente tinha dono.
A chuva caía em cortinas grossas, transformando o pátio da mansão num lamaçal vermelho que sugava as botas como areia movediça. O ar cheirava a pólvora molhada, sangue quente e combustível vazando do container amassado. Leonardo Lisandro e o Subtenente André Mendes giravam como dois furacões de carne e metal, cada troca de golpe ecoando mais alto que os trovões.
André desferiu um cruzado esquerdo pesado, placa de cerâmica do antebraço ainda trincada rangendo. Leonardo inclinou o tronco, sentiu o vento passar raspando a orelha, e respondeu com um gancho curto no fígado exposto — o impacto foi úmido, profundo, como martelo afundando em barro. O gigante grunhiu, joelho dobrando meio centímetro. Leonardo não deu respiro: agarrou o capacete partido pelos restos da viseira e puxou a cabeça pra baixo, joelhada ascendente que acertou em cheio o queixo. Dentes voaram dentro do visor rachado, sangue misturado à saliva espirrando em arco quente.
André contra-atacou com um soco descendente de marreta, acertando o ombro já deslocado de Leonardo. Osso rangeu, dor explodiu em faíscas brancas. Mas ele usou o próprio impulso pra girar, cotovelo giratório na têmpora do subtenente. O capacete cedeu com um crack seco, placa de titânio dobrando. André cambaleou, visão borrada, mas ainda vivo — um monstro de quase três metros que não caía fácil.
Eles colidiram de novo. Punho contra punho. Antebraço contra antebraço. Cada impacto fazia o chão tremer, lama voando em ondas. Leonardo sentiu costelas quebradas perfurarem o pulmão esquerdo, respiração saindo em golfadas vermelhas. André tinha o braço direito inchado, veias estouradas, carne viva exposta onde o soco-inglês explodira.
O golpe final veio quando André tentou um takedown desesperado, braços enormes envolvendo a cintura de Leonardo. Ele deixou o gigante se aproximar, pés firmes na lama, depois explodiu pra cima — suplex modificado, corpo inteiro girando no ar. O crânio de André bateu primeiro contra o concreto do posto de gasolina. O som foi oco, nauseante: osso cedendo como melancia madura. O capacete se abriu ao meio. Sangue e massa cinzenta jorraram em spray grosso, misturando-se à chuva. O corpo de três metros tremeu uma vez, pernas dando espasmos, depois parou. Morto. Crânio amassado como lata de cerveja pisada.
Silêncio de dois segundos. Só a chuva.
Então os outros vieram.
Quinze militares do choque restantes, mais trinta e nove integrantes da Presas da Força Jovem armados até os dentes. Pistolas, fuzis curtos, alguns revólveres calibre .38. Eles abriram fogo sem piedade.
Balas cortaram a chuva. Leonardo não desviou completamente. Ele avançou. Abdômen contraído ao máximo, músculos abdominais transformados em placas de aço vivo, pele esticada brilhando vermelha sob a inundação de sangue e adrenalina. Três projéteis acertaram em cheio: um no ombro esquerdo, perfurando músculo e saindo pelas costas em jato quente; outro no peito, alojando entre as costelas trincadas, parando contra o osso; o terceiro roçando o abdômen contraído, rasgando pele mas não penetrando fundo graças à tensão extrema. Dor lancinante, como ferro em brasa, mas ele não parou. Sangue escorrendo pelos furos, misturando-se à chuva, pintando o torso nu de vermelho vivo.
Ele chegou no primeiro atirador — um soldado de colete — e quebrou o pulso dele com um tapa aberto, arma voando. Depois agarrou o capacete e girou o pescoço até o osso estalar como galho seco. Corpo caiu mole. O próximo atirou à queima-roupa no peito dele. Bala alojou fundo, perto do coração, mas o abdômen de Leonardo ainda contraído absorveu parte do impacto. Ele respondeu com palm strike na garganta, cartilagem esmagada, homem engasgando sangue antes de cair.
Eles atiravam sem parar. Mais quatro balas: duas no ombro direito, uma roçando o pescoço, outra no quadril. Cada acerto fazia o corpo dele tremer, mas os músculos não relaxavam. Ele se movia como máquina quebrada mas implacável — low kick que quebrou tíbia de um soldado, cotovelo que afundou órbita ocular de um integrante verde, suplex que quebrou coluna de outro contra o capô de um carro blindado. Sangue voava em cascatas, corpos caindo em pilhas, lama virando lamaçal vermelho.
O último foi um capitão da Força Jovem, facão na mão, atirando com a outra. Leonardo deixou a bala acertar o peito de novo — impacto surdo, mais sangue — e simplesmente segurou o braço armado, torceu até o ombro sair do lugar, depois desceu um cotovelo na nuca. Vertebra cervical estalou. Homem caiu de joelhos, olhos vidrados.
Leonardo ficou de pé no centro do massacre. Corpo inteiro furado, sangue escorrendo de sete orifícios de bala, costelas perfuradas, ombros destruídos, rosto inchado e roxo. Respiração rasa, visão em túnel. Vapor ainda subia da pele superaquecida. Ele deu dois passos cambaleantes, depois os joelhos cederam. O mundo girou. Lama fria contra o rosto. Escuridão total.
Desmaiou.
Acordou com o cheiro de lençol de cetim limpo e perfume caro. Corpo nu, coberto apenas por bandagens brancas profissionais — ombro esquerdo envolto em gaze grossa, peito com curativos compressivos, abdômen envolto em faixa elástica que mantinha os músculos ainda contraídos por reflexo. Tubos de soro na veia do braço direito. Dor latejante em cada ferimento, mas limpa, controlada. Cicatriz no olho esquerdo ardia sob a luz suave.
Estava no apartamento de Priscilla. Quarto amplo, luz indireta dourada, espelho no teto refletindo seu corpo marcado. Lençóis vermelhos de cetim contrastando com a pele parda furada. Ela estava sentada na beira da cama, robe de seda preta aberto no colo, pernas cruzadas, segurando uma seringa vazia.
“Priscilla — “ Você acordou, demônio. Eu tirei cinco balas. Costurei o resto. Seu corpo... porra, Lisandro, você tankou chumbo como se fosse chuva. Eu vi tudo da varanda. André morto, crânio aberto. Os outros virando cadáveres um por um. Você não desviava. Só avançava. Abdômen daquele jeito... parecia aço vivo. Eu nunca vi nada igual.
Ela passou o dedo suavemente sobre o curativo do peito dele, unhas vermelhas traçando o contorno.
“Priscilla — “ Você tá no meu apartamento no Jundiaí. Ninguém sabe. O governador fugiu de helicóptero. O filho dele também. Mas você... você destruiu metade da tropa deles. Agora descansa. Eu cuido de você. E quando você levantar... vamos conversar sobre o que realmente veio fazer nessa escola.
Leonardo piscou devagar, olhos âmbar focando o teto espelhado. Corpo nu, vulnerável, mas vivo. Mente já calculando o próximo passo, mesmo com a dor queimando como fogo lento.
Eles fugiram. Mas eu vi o rosto dele. O filho. Amanhã... ou depois... eu termino o que comecei.
Fora da janela, a chuva de Anápolis ainda caía, lavando o sangue da mansão distante.
E dentro daquele quarto de luxo, a guerra ganhava um novo round silencioso.
Posted Mar 1, 2026, 1:42 AM UTC