E o Rodeio Continua - Capítulo 16, final, parte 1

   Havia uma grande foto no jornal do tenente Casmurro todo orgulhoso, ao lado do sutiã vulcânico de Donna Madelaine, todo queimado. Ele segurava o resto em frangalhos do objeto dependurado por uma vara improvisada. Disse tê-lo encontrado naquele estado, mas se desconfiava que queimara ele mesmo.

— Parabéns pela primeira reportagem!  — disse um rapaz negro usando óculos.

— Obrigado Jackson. respondia Daniel, com as mãos entrelaçadas em frente ao corpo.

— A foto do Caprini ficou mesmo uma maravilha! — comentava o senhor Magnus Xavier, o editor-chefe do Bule.

— Que horror... desperdiçar um legítimo Lucartier desse jeito! — comentara casualmente uma mulher com ares de secretária, tratando de se retirar com dois copos que tinham sido utilizados.

— O Casmurro é conhecido por ser tão seco com a imprensa... Como o convencera até mesmo a POUSAR para a foto?!? — perguntou o senhor Xavier.

 

— Talvez ele tenha mudado. Foi muito solícito. E simpático! — respondeu Daniel.

— Após acompanhar sua trajetória de seu sucesso, quem não iria? Até tentaram aliciar outra vez o nosso senhor Paulinas, senhor Xavier... É melhor ficarmos de olho nele! comentou Jackson, que tinha ao seu lado um homem que se mantinha calado.

— Mesmo? Quem? — perguntou o senhor Xavier. Jackson responde:

— O Gazeta Objetiva. Até enviaram uma mulher bonita para o serviço sujo. O senhor tinha de ver o glamour.

— Mas somos NÓS que o temos, não é, senhor Paulinas!

— Certamente senhor Xavier! — respondeu Daniel animadamente, ao que Xavier lhe diz:

— Nunca se esqueça... de seu contrato conosco!

 

   A porta do escritório fora aberta em uma fresta. Passara por esta a cabeça de uma secretária que fala:

— Senhor? Há uma representante da Aimbre no telefone. Ela quer que coloque uma tarja preta sobre as fotos do sutiã queimado.

 

   Fazendo uma cara de quem comeu algo muito azedo, o editor despensa a secretária com um sinal sacolejado de sua mão. Ela obedece, se retirando.

 

— Senhor Paulinas, já estamos preparando um orçamento aquelas borboletas de época que o senhor falou para a reportagem especial. Mas... Enquanto isso... As notícias não param na Cidade!

 

   O senhor Xavier, movera então sua cadeira de rodas para sair da escrivaninha que a ocultava.

 

— O que trouxe para nós Mckalister?

 

O homem calado, o tal do Mckalister, joga papeis sobre a escrivaninha.

— Talvez o escândalo do sutiã tenha terminado para o tenente Casmurro, mas não parece ter terminado para o estilista do sutiã.  — disse ele finalmente.

— Céus... Olha o quanto ele ficou FURIOSO! Estão vendo isso? Meus doze anos ininterruptos de jornalismo me dizem somente uma coisa: alguém está prestes a dar uma facada em alguém.  — disse o senhor Xavier, dando toques com o dedo indicador as fotos trazidas por Mckalister.

— Por trás das costas? — comenta  Jackson com ares de comédia.

— Sempre o melhor lugar para uma faca — comenta  Mckalister, num tom um tanto sombrio de sua voz.

— Olhe a ambiguidade dessas suas declarações, Mckalister... Não me faça arrepender de tê-lo contratado!  — disse o senhor Xavier. Ele toma dos papéis trazidos por Mckalister para olhar melhor. Enquanto os folheia, comenta:

 

— O que anda fazendo o Wilfred?

— Está cobrindo o caso do vigilante do distrito sete, chamado de Besourinânimo — respondeu Jackson.

— Não sei se eu quero que ele continue... Não parece ter uma apelação muito rentável para o nosso Bule... O nome é mesmo sugestivo, mas estava claro que ele não tem um bom estilista.

 

   Sentindo-se tão aparte de toda aquela conversa, Daniel pergunta:

— E... quanto a mim...? Senhor Xavier?

— Vá descansar meu rapaz. O seu descanso é bem-merecido. Vá tomar umas e outras num bar... Como é mesmo o nome daquele lugar que anda badalado, Jackson?

— O Estúdidio Sessenta e Seis.

— O Estúdio Sessenta e Seis, e vá ver as belas moças andando nas calçadas.  — disse o senhor Xavier, que ao terminar sua sugestão, acende um belo charuto, enquanto Jackson dá palmadinhas amistosas no ombro de Daniel.

 

   Saído do escritório do editor-chefe Xavier, Daniel parou por um instante para observar diante de si a agoniada sala, em que seus colegas jornalistas se ocupavam com os mistérios de suas próprias matérias.

 

   Respirou fundo aquele maravilhoso ar profissional de tinta de impressão, em vez do cheiro de vela envelhecido com que se habituara no cubículo que tinha na Santa Casa em Vaidosinha.

 

   Tudo se passara tão de pressa. As luzes das câmeras lhe fotografando, as perguntas sobre a trajetória de sua carreira... Foram quinze dias intensos, de um contínuo vai e vem, e não quinze voltinos como se dizia.

 

   Havia sobre as escrivaninhas de seus colegas cópias do Arauto de Vaidosinha que lhes foram distribuídas. A obstinação e independência que Daniel demonstrara foram tomados como exemplo a seguir por todos. No entanto, não era o que via pouco impressionado um interno temporário adolescente que parecia um tanto enfezado. Pois acontecia dele ter suas próprias investigações, encaixando as peças que ninguém mais, senão ele, encaixava... e logo, logo, ELE iria revelar quem era que realmente comandava a Cidade, ELE!

 

— Senhor Paulinas... a... pesquisa que o senhor me pedira das edições trinta a sessenta e seis — falava uma moça usando coque, ajeitando os óculos.

— Sensacional...! Obrigado... senhorita Montgomery! Não esperava que fosse conseguir assim tão rápido.

— Não tem de quê... senhor Paulinas. Agradeça a dona Simone, que mantem a seção histórica muito bem-organizada — disse sorrindo a bela moça tímida, e se retirou.

 

   Daniel a acompanha com os olhos, com um sorriso discreto no rosto. Existia uma certa possibilidade que a senhorita Montgomery desse um fim as conferidas de Daniel nas belas moças das calçadas... Por isso estava torcendo que a estória da mulher glamourosa do Gazeta Objetiva não fosse de seu conhecimento.

 

   Apalpando algo em seu bolso, outra daquelas incertas sensações faziam Daniel se questionar. E após muito ponderar...

 

   Um táxi que tomara o deixa na entrada das Indústrias Munchausen. Passou pelo segurança mostrando o cartãozinho especial que recebera. Enquanto se dirigia a área dos elevadores, Ingrid passa por ele, muito bonita em um de seus vestidos brancos, acompanhada por uma secretária com pastas cheia de papeis em seus braços, falando de forma tensa. Ingrid, que parecia não dar muita bola para o que falava a secretária, tinha um sorriso discreto no rosto, e lançara, por um breve momento, um olhar sugestivo para Daniel.

 

   O que podia preocupar tanto aquela secretária? Desde o depoimento de Ingrid, as ações da Munchausen estavam em alta, assim como as vendas do Luminax!

 

   Daniel toma um dos elevadores para ir ao escritório da doutora Englehart, no já não tão assombroso sexto andar. Ela o recebe:

— Senhor Paulinas.

— Doutora.  — disse Daniel sentando-se diante da escrivaninha da doutora – algo que andara fazendo nas últimas cinco septérios. Ele coloca sobre a escrivaninha uma caixa.

 

— Eu decidi não continuar com o tratamento, senhorita Englehart.

 

   Puxando a caixa deixada diante de si, ela fala:

— Eu já estava esperando por isso. Na verdade, poderia continuar tomando indefinidamente o produto.

 

   Daniel olhava a doutora com um olhar inquisidor.

— Senhor Paulinas... O experimento vinte três existe apenas como placebo!

— Place.. Mas... Eu TENHO sentido coisas...!  — disse Daniel.

— Tem vivido tantas mudanças recentes em sua vida... A fama nos jornais... São muito provavelmente os responsáveis por isso.

 — Então aquelas assinaturas nos contratos...

— Apenas uma garantia. Não queremos interromper o experimento nos outras candidatos por serem informados precocemente do fato, por um ou outro candidato recém-informado... que se mostrasse irresponsável com o segredo.

 

   Daniel ainda parecia processar aquela revelação, o que prontifica a doutora a sugerir:

— Se está decepcionado, por que não tenta a pílula comum? Com o salário que deve estar ganhando no Bule, pode comprar todos os frascos de Luminax com que puder sonhar!

— Eu só gostaria mesmo de poder continuar as sessões psicoterápicas com a senhora. Mas... Não vou poder... não é?

Ela sacode a cabeça numa negativa, torcendo os lábios numa face que dizia ‘é uma pena...’.

— Cheque os detalhes nos documentos que assinou.

 

   Daniel devolveu o cartão especial do candidato, depositando-o sobre a escrivaninha da doutora. Logo estaria as ruas a procura de um táxi, ainda processando aquelas informações decepcionantes.

 

⁂

 

   Em seu escritório, Neto Nonato Nóbrega baixa as páginas que estava lendo, com seu olhar lacônico. Diante dele, Vicente Ducatti esperava que terminasse a leitura. Nóbrega tinha a sua esquerda, sobre sua escrivaninha, uma pilha da coleção de reportagens anteriores do seu tempo do Clarim Esmeraldino. Fotos intrépidas de heróis sem face da população, que não fariam feio se comparadas as que Joãomy Caprini tirara do Capa Preta, ainda que não usassem uma roupa tão chamativa.

 

— Como o senhor pode ler, minhas credenciais são muito boas.

— É inegável... Mas a sua dispensa do Clarim Esmeraldino... não foi mesmo por justa causa?

— A maior das injustiças senhor Nóbrega! Quando se tem amor a dignidade, quando se apega a justiça... a difamação é o que vem logo em seguida.

— Quando estava mesmo disposto a trabalhar?

— Tão logo quanto possível! Estou de olho nesse caso da crise dos bueiros estourados.

— Está contratado, senhor Ducatti. Pode começar amanhã mesmo.

— Muito obrigado, senhor Nóbrega!

 

   Já tendo aberto a porta do escritório, Vicente se voltou rapidamente para Nóbrega, mantendo a porta do escritório aberta, para dizer, com aquela confiança tão sua:

— O seu problema com a Dulçarola? Pode considerar como RESOLVIDO!

 

   Saído do escritório de Nóbrega, Vicente se dirigia a um dos elevadores, quando nota a secretária Fiona Doya numa escrivaninha, lendo nada mais que Priscila Covarraza. Era uma das impressões de luxo com a capa em que a bazuca do mocinho tinha detalhes em aço cromado.

 

   Vicente sorri, ao flagrar uma fã num lugar tão inesperado. Colocando ambas as mãos em seus bolsos da calça, vai até ela.

— Senhorita... Fiona, não é isso? Em que página se encontra?

— Hã? Oh! Do livro? Ah... Estou na... página seis... sessenta e seis. O senhor é leitor de Priscila Covarraza?

 

   Inclinando-se como que para falar discretamente, e fazendo mesmo uso de uma voz mais baixa, Vicente diz:

— Eu tenho quase certeza que Daniel Collins vai terminar com Samantha Redcliff.

— O senhor não está lendo a mesma estória que eu então! A senhorita Priscila tem mais bom senso que isso...

— Pois eu acho que a senhora Covarraza aguarda mais surpresas para aquela personagem menor.

Fiona sorri, perguntando então:

— O que o senhor escreve mesmo?

— Perdão, senhorita Fiona! Sou Vicente Ducatti. O novo jornalista contratado.

— Senhor Ducatti! O senhor não trabalhava para o Clarim Esmeraldino?

— Águas passadas, senhorita Doya.

— Está conosco agora? Seja bem-vindo! Com o... ‘senhor’ Dantes em processo de rescisão, a seção de Casos Especiais está em falta de pessoal. Mas A PAZ que se sente! Não tem preço... Não tem preço!

— O... senhor Dantes... Não trabalha mais aqui? — pergunta Vicente, bastante surpreso.

 

⁂

 

— Sim mamãe, eu sei.... Os Céus a Levem! — disse Rodrigo, fazendo uma ligação numa cabine. — Por que eu iria mentir pra senhora? Não, eu NÃO estou numa casa de má reputação! Eu estou na rua Silveira e Silva, bem diante de um dos maiores outdoors já concebidos pela mente do marketing... Dá pra se morrer de diabetes só de olhar. É, o sobretudo ficou muito bem lavado... obrigado.

 

   Conferiu um belo ciclômetro em seu pulso – o ponteiro não parecia estar andando.

 

— É, estou tomando cuidado. Eu mostro pra senhora depois. Não, não bulinei ninguém. Eu já lhe prometi isso! Está bem. Está certo. Tchau!

 

   Rodrigo colocara o telefone no gancho.

 

— Que mal faz a gente dar umas bulinadinhas de vez em quando? — comenta  ele para si, e então observa brevemente o outdoor com uma enorme banalícia de morango da Dulçarola – “HMM... TÃO ESPECIALIDOSO!” dizia o slogan na propaganda.

 

   Desembalando um pirulito, para, como que notando algo errôneo no doce:

— O que foi? Não se intimide com todo esse tamanho. É só uma foto ampliada... E nem se quer é de chupar!

 

   Após uma breve apreciação de seu pirulito, Rodrigo realiza outra ligação:

— Hey baby? Hmm. Hmm-hmm. Hmm... Dentro de alguns voltinos, né? Tá bem... Eu te pego lá.

 

   Saído da cabine, após uma caminhada de dois voltinos, Rodrigo recebe um cutucão de dois dedos nos ombros que o faz parar e virar-se.

 

— Hey? Não fa-fa... fa-fa-FAla mais com os ve-ve VE-lhos amigos?

 

   Rodrigo, pondo-se novamente a andar, olhando sempre em frente, pergunta:

— O que aconteceu com os encontros secretos a noite? Você não vai irromper em chamas assim à luz do dia?

 

   Biquinho se apressa para acompanhá-lo.

 

— As ca-ca... ca-ca-CARtas de baralho e tudo o mais? Esquece! EU SOU UM NO-NO-NO... NO-NO-NO...

 

   Rodrigo dá uma batida no peito para a coisa destravar.

 

— NOVO HOMEM!

— Eu não to vendo nada de novo. E seu pe-pe-pe não melhorou.

— Mas isso é meu cha-cha... cha-cha-CHARme! Eu até tenho planos de fazer um curso de di-di... DIcção, mas isso é somente UM dos meus mu-mu... MUITOS planos!

— Que bom pra você, Biquinho. Que bom pra você — disse Rodrigo laconicamente, segundo pela rua, sempre em frente, quase sem fazer contato visual com Biquinho. Este para, deixando de acompanhar Rodrigo, um tanto sentido pelo desinteresse de Rodrigo, que continua seguindo em frente.

 

— No-nos... vemos no Éden? — berra ele, com certa desconfiança. Rodrigo lhe berra de volta:

— É, um dia desses.

 

   Pouco depois, Rodrigo entrava em seu Fordrolet estacionado no meio-fio, partindo. Deu uma parada na banca de Simão, em que o Rodeio Diário custava agora tantos narcos. Como não podia deixar de ser, Simão lhe apresentou a mais nova edição de Ninfetas Maravilha. Apesar da moça da capa da nova edição ser muito saudável, aquela fora outra derrota para as Ninfetas: Luíza Kidder continuava soberana na coleção particular de pinups de Rodrigo.

 

   Como ele ainda tinha algum tempo pra matar, discutiram um pouco sobre o índice de criminalidade no jornal, claro, sempre exagerado. Rodrigo preferiria discutir o índice Luíza Kidder de centimetragem de coxas grossas, mas... tinha de se seguir com os assuntos que chamavam a atenção no momento.

 

   Um cliente casual que aparecera em busca de sua cópia do jornal Tô de Olho não fora capaz de interromper a conversação. Simão rapidamente o despacha, lhe dando trinta e três centivos de troco.

 

   Com o Capa Preta aparentemente fora de circulação... o posto de herói nas manchetes dos jornais se encontrava em aberto. Simão estava sabendo de tudo que tinha pra saber sobre o caso, mas alívio não era bem a palavra que descreveria. Ainda não tinha visto o Nasca, mas tinha certeza que já estava coberto por novas marcas de gangues, bem como balas de metralhadoras tentando apagá-las. Tenente Casmurro? Dera um fim tão triste para o sutiã... Não era um oficial muito imaginativo.

 

— HEY? Tá fugindo pra onde apressado assim pilantrinha? — perguntou Rodrigo, flagrando Migalhas entrando e saindo sorrateiramente da banca.

— Não tenho o luxo de ser um vagabundo como o senhor!

 

   Rodrigo pensa consigo: via-se que o menino logo ia ser o gerente de uma grande empresa. Então pergunta:

— Não vai nem me dizer seu nome de verdade?

Ele espera um pouco, mas o garoto nada fala. Então Rodrigo estende as mãos, dizendo:

— Eu sou o Clorêncio Silvelino. Por batismo.

— Clorêncio? — questionava Simão.

 

   Virando-se para ele, Rodrigo diz:

— Essa é uma longa estória...

 

   O menino não lhe balança as mãos, mas após uma breve olhada, dá uma rápida batida nela.

— Meu nome... É MIGALHAS!  — disse ele, partindo para atravessar a rua.

— CUIDADO COM OS POMBOS GAROTO, É VOCÊ QUE ELES TÊM COMO REFEIÇÃO,NÃO SABE? — berrou Rodrigo, rindo então para si.

 

   Simão comenta:

— É dureza conseguir sua confiança. Nem eu mesmo sei o nome de verdade dele!

— É um garoto temperamental...

 

   Rodrigo conferiu o belo ciclômetro em seu pulso, dando uns pitoques pro ponteiro preguiçoso tratar de acordar. Resolveu levar a Ninfetas Maravilha dessa vez para... aprofundar as observações técnicas e aprofundar seu julgamento – não queria cometer injustiça com o talento da moça. Foi a seu carro encostado no meio-fio e partiu.

 

   Pouco depois, parava seu Fordrolet. Virgínia, assim como Rodrigo, saia dele, olhando o prédio logo a frente deles:

— Certas pessoas gostam de viver na pobreza! — diz Virgínia, balançando a cabeça.

— Eu lhe avisei pra não criar expectativas demais. Mas estou fazendo meus movimentos. E... Há alguma coisa de errada com seu olho?

 

   Os cílios postiços no olho esquerdo de Virgínia grudavam teimosamente – não estava realmente piscando para ele como parecia. Enquanto tratava de desgrudar os cílios, Virgínia fala:

— O que é essa coisa especial que você quer me falar? — pergunta Virgínia.

— Quando subirmos e você terminar de esculhambar o local... vou te dar umas dicas do que seja

— Eu não vou subir. Eu tenho o teste.

— É hoje?

— É agora!

— E eu achando que você se vestiu assim só pra me matar... Está mesmo preparada?

— Eu NASCI preparada, senhor Dantes!

— Então é isso? Você só quis me usar pra carona?

— Pra que? São só umas quadras daqui até a agência. Eu vou a pé mesmo.  — disse Virgínia, se pondo a caminho.

 

   Rodrigo a observa andar, ouvindo os claques de seus saltos altos... Sua garota não perderia a oportunidade de exibir as pernas bem torneadas!

 

   E assim ele se viu sozinho mais uma vez... Mas já estava acostumado àquele tipo de abandono.

 

   Subiu as escadas do edifício até o terceiro andar. Olhou outra vez seus cômodos vazios, ainda certo e satisfeito que estava no caminho certo. O preço do aluguél lhe era acessível e a vizinhança ali parecia boa, tranquila.

Parou um momento diante da porta envidraçada, onde futuramente colocaria

 

Rodrigo Dantes

Investigador Privado

 

 

   Anteriormente, era a porta do consultório de um dentista, que provavelmente devia as banalícias da Dulçarola o sucesso que lhe permitira se aposentar cedo.

 

   Era verdade que havia um certo gosto de deja-vu em tudo aquilo... Já tivera um escritório como aquele antes, alugado. Mas não se importava de recomeçar tudo de novo e sozinho. Iria se dedicar plenamente a sua profissão... Nem que tivesse de se especializar em gatos.

 

   Em torno de tantos da noite, a porta de um apartamento que fora batida se abria, para Rodrigo:

— Aqui está seu gato, dona Liddel! — disse Rodrigo, estendendo, de suas mãos para a senhora, um gato felpudo de cor alaranjada.

— Oh Céus Rubros, não perdera mesmo o colar!  — disse a senhora, acolhendo o gato, coberta ela mesma de joias, nos vários colares em seu pescoço, e nos anéis em seus dedos.

— Onde o encontrou?

— Olha, eu bati foi perna...! Modéstia a parte, eu sou um detetive muito bom, mas tenho de admitir que... dessa vez... tive de contar com um pouco de sorte para conseguir!

 

   Muito satisfeita, a senhora lhe pagou trezentos narcos e trinta e três centivos – um generoso extra ao preço que tinham acertado pelo serviço. Já se afastando pelo corredor a caminho das escadas, apalpando brevemente o bolso, Rodrigo tirou dele, jogando para o alto uma pedra brilhante bastante semelhante a do colar do gato e o apara com as mãos. Rodrigo coloca a pedra de volta no bolso, e segue seu caminho.

 

   Algum tempo depois, Rodrigo adentrava no edifício em que residia com uma caixa alongada na mão. Em seu apartamento, dirigiu-se a cozinha, onde depositou a caixa. Foi ao quarto, até o armário, e o abriu: queria o disco dos Splitz, que tratara de deixar mais bem guardado depois da “supresa” que Virgínia lhe fizera.

 

   Enquanto colocava a agulha da vitrola na faixa seis do disco (da canção Descascou, Tem que Comer), pensava no quão trabalhoso fora pegar aquele estúpido gato da senhora Liddel. Ele NÃO estava passeando no mercado negro como lhe dissera... Mas... essa era uma outra estória...

Posted Mar 5, 2026, 2:27 AM UTC

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