E o Rodeio Continua - Capítulo 16, final, parte 2, final

   Enquanto começava a apreciar as primeiras notas da música, acompanhando com murmúrios cantarolados, retornou a cozinha com intenções de improvisar um lanche. Mas antes disso, estirou os braços para os lados do corpo: a gravata desfez seu nó como que sozinha, o chapéu flutuou para o pegador e o sobretudo fora retirado – tudo sem suas mãos, através de sua telecinese. Já tinha feito consideráveis progressos com seu talento, e tinha planos de mostrar pra Virgínia algumas das coisas que andara treinando... Sentia que era a volta de revelar esse segredo para ela.

 

   Ele abre a tampa da caixa que trouxera e observa seu conteúdo por algum momento. Tirou e estendeu sobre os olhos uma venda vermelha com dois furos para os olhos. Vira numa vitrine e não conseguira resistir. Era apenas uma fantasia genérica qualquer e não desses personagens famosos como o saudoso Super J e os Doze Fantásticos.

 

   Batem na porta. Ele guarda rapidamente a venda na caixa, e a esconde. O que poderiam pensar se o flagrassem com uma coisa daquela... E se vissem a cueca então!

 

 Indo a porta, a atende: era dona Ricarda, vizinha do 101.

 

— Olá João?

— Olá dona Ricarda! Deve ter decidido sobre o seguro contra mãos-bobas, não é?

— Não não... É que... Eu sei que senhor já explicou a dedicação de sua namorada...

— Talvez noiva. complementou rapidamente Rodrigo.

— ...talvez noiva, ao teatro, o que é um sonho realmente maravilhoso de se ter, mas... Eu e a vizinhança ficaríamos muito gratos se, durante esses exercícios dela, ela... gritasse mais baixo, sabe?

— Sei, sei sim senhora. Pode deixar. Eu vou falar com ela.

— E se puder estipular voltários mais convenientes para o exercício.

— Com certeza, pode ficar tranquila.

 

   Então, com um sorriso no rosto, acompanhando a vizinha retornar para o próprio apartamento, Rodrigo fecha a porta do dele.

 

   A gritada da outra noite fora mesmo das mais excessivas, mas... não foram consequência de seus exercícios para os filmes de terror que aguardava em seu futuro.

 

   Uma nova batida na porta faz Rodrigo pensar que ainda alguma coisa perturbava a vizinha. Já se preparando para o aborrecimento, quando se surpreende ao abrir a porta:

— Senhor Dantes. Fico feliz que tenha me informado de sua resignação! — falava Vicente.

— Quando é que você vai deixar de me perseguir? Não se pode nem descansar por quinze voltinos!

 

   Rodrigo constata consigo: estava deixando o Rodeio, mas o Rodeio jamais iria deixá-lo realmente.

 

— Se enxergue, Dantes! — dizia Vicente, já entrando, sem pedir licença. Rodrigo ia comentar a grosseria, mas resolve ficar calado, fechando a porta.

 

— Estava contando que nossa competição me estimulasse a me manter afiado. Seria seu novo colega... Fui otimizado hoje no Rodeio.

— Parabéns pra você! Deveria estar feliz com minha resignação, vai ter o rodeiomóvel todinho pra você. Não não... Você vai ter de dividir com o Millôr. Não sei se já te disseram, mas era muito importante cuidar da sessão de cartas.

 

— Sei... Está curtindo sua fase de desempregado? Imagino que com todo seu tempo livre, você já tenha dado uma olhada nisso daqui...

 

   Rodrigo toma o jornal que Vicente tinha na mão.

 

— Não foi o Nóbrega que te mandou, foi? É sobre o Besouro Prateado? O que? O que quer que eu leia? Rodrigo abria as páginas do jornal, lendo rapidamente as manchetes: ‘Briga de mendingos por caixas de papelão rasgadas param o trânsito...’, ‘Provável avistamento do MURO DO BECO XIV...?’ Olha! Finalmene o Cerqueira foi pego em cena para uma foto!

 

   Ele não parecia muito satisfeito, no entanto... Lia-se no jornal:

 

OPERAÇÃO MAPA DAS ESTRELAS

 

Como o Guia das Celebridades Werner

era Utilizado para o Sequestro e Roubo

dos fãs e turistas na Calçada da Fama

Os Oficiais Gurgel e Cerqueira detalham o caso

 

 

   O Gurgel, no entanto, estava todo emperdigado em sua pose. Numa outra foto próxima daquela matéria, dedos na pose ‘ok’ segurava uma das chamadas roxinhas – o novo perigo das ruas.

 

— Página seis, Dantes!

— Ah, ok...

 

   Rodrigo, após muito observar, se vê forçado a confessar:

— Eu não estou vendo nada.

— A nova marca no Paredão. Do lado dos Listrados. Entre o Caveirossos e os Piramidais.

 

   Rodrigo vem mesmo a localizar a marca. Vicente continuava:

— O nome que ouve nas ruas é ‘Rorschach’. Por acaso já ouviu falar anteriormente?

— Hmm... Se está querendo minha opinião profissional... Estou cobrando por volta agora, incluindo a consulta.

 

   Vicente diz:

— Há um certo clima no ar na Cidade ultimamente... Com o sumiço do Capa Preta, e essa nova ameaça... É como se um novo herói estivesse para atender ao clamor por justiça de nossas ruas.

— Hmm... Eu já pensei desse jeito... Mas não sei se posso mais concordar com essa mentalidade. Mas... O que eu tenho a ver com isso?

— O Daniel me contou do seu talento... De como recuperou o wedjat.

 

   Rodrigo nada comenta, aguardando que Vicente desenvolva todo seu pensamento. Vicente continua:

— Você manifesta o número Campbel... sessenta e seis, ou algo do tipo, eu não sei, é o Daniel é que sabe dessas coisas...

— Hmm... Devia ter imaginado que ele não resistiria a pressão de um profissional....

— É de nascença? Ou do Luminax?

— Que diferença faz?

— Faz TODA a diferença! De qualquer forma, quero vê-lo. Quero que me mostre em ação!

 

   Após um breve momento de silêncio, Vicente estoura em impaciência:

— ME MOSTRE, DICE!

— Isso é algum tipo de assédio sexual? Olha, eu não tenho interesse de espetacularizar meu talento para vender jornais. Você deveria é estar se preparando para revelar ao público que você é Priscila. Acha que eles estão preparados?

 

   Vicente faz um sorriso cínico. Então fala:

— Eu SEI que você vai colocar a cueca por cima da calça mais cedo ou tarde, e eu estarei lá para tirar a foto... e escrever a reportagem depois!

 

   Vicente ia então se retirando, tendo já aberto a porta, mas retorna brevemente para falar:

— Você e seu talento NÃO VÃO conseguir resistir a isso aqui!— diz ele, dando apontadas no jornal cheio dos superproblemas da Cidade.

— Fique me observando! — declarou Rodrigo.

 

   Era então uma quarta, tantas da vésper no cemitério T Bundy Gardens.

 

   Daniel e Rodrigo olhavam, o último, com um pirulito lhe estufando a bochecha, um dos túmulos. Rodrigo dizia de forma amarfanhada:

— ...e esse é o defunto do busto do esgoto. Dizem que... Se estivesse disposto a cavar, e fugir da polícia logo depois, poderia encontrar um desses tesouros escondidos das heranças de família.

— Alguém já tentara isso antes? — pergunta Daniel.

— Ahmm... Algumas muitas vezes.

 

   Estavam diante do túmulo de Hamir Biaf, um dos mais bem cuidados ali. O limo estava tomando conta das lápides e pequenas estátuas.

 

— Estou bastante feliz que tenha se juntado a nós aqui no distrito nove, Daniel! — disse Rodrigo — Talvez não possa endireitar Vaidosinha como queria, mas pode tentar endireitar o Bule.

— Ainda não desisti. Eu vou retornar a Vaidosinha... um dia desses. E estabelecer um jornal de verdade lá!

— Dando prosseguimento ao Arauto de Vaidosinha?

— Não... Estou pensando numa linha editorial mais conservadora. Depois que me mudei pra cá, eu vim a perceber que o problema de mendicância é bem mais urgente que a ameaça do Luminax.

— É, eu até me pergunto de vez em quando: que tipo de atitude tomaria Severina Das Quengas numa situação dessas...

— Quem?

— Rádio KKQ, as oito e meia da noite, Daniel!

 

   Após um breve silêncio contemplativo, Rodrigo resolve perguntar:

— Conseguiu alguma coisa do paradeiro do seu pai?

— Ainda não... A verdade é que ainda não pude me dedicar realmente a isso, com toda essa agonia do depoimento da Ingrid, meus quinze voltinos de fama e meu trabalho no Bule...

— Provavelmente é só uma questão de tempo. Nada melhor que a fama para fazer surgir, de tudo quanto é tipo de buraco, parentes que você nem imaginava que tinha.

 

   Rodrigo virou a face casualmente, e se viu reagindo ao que vira:

— OH-OH! Nada de seu Caninha 45. O nosso defunto já bebeu o suficiente!  — disse ele, ao avistar a aproximação de Vicente.

 

   Quando se encontrava próximo dos dois, Vicente oferece um Auschwitz para Daniel.

 

— Eu prefiro meu Hiroshima, senhor Ducatti. Mas obrigado  — disse Daniel.

— Gosto ruim não se discute — disse Vicente, tratando de acender o Auschwitz dele. Daniel dá de ombros ao comentário.

— E pra mim? Você não dá nada? — chora Rodrigo.

— Aqui. Pra você continuar ajeitando seu cabelo — disse Vicente, tirando de um bolso de seu terno o pequeno frasco de brilhantina.

— Está bem...— diz ele amarfanhadamente com seu pirulito lhe ocupando a boca.

 

   Apesar de ser ainda da cor verde, Rodrigo parece não se importar em aceitá-lo. Resolve tirar o pirulito da boca para falar melhor:

 — Nosso garoto está crescendo, Vicente! Logo estará nos roubando o patrocínio da Dulçarola!

— Seria bom mesmo. Talvez um patrocinador possa ajudar na publicação de nosso livro.

— Nada da publicação?

— Nada... — respondeu Vicente.

 — É esse Cinquenta Tons de Verde dificultando as coisas! E com os cilindros... ficando cada vez maiores... e mais verdes.

— Estávamos tão confiantes que nos daria boas noticias, Vicente!

— Mas essa é a que tenho para dar. Ainda estava incerto do resultado... Recebera a ligação naquela manhã.

— É... O Koncrite vai continuar tendo todo o crédito do desbravamento dos mistérios dos esgotos por mais algum tempo.

 

   Um pequeno rápido brilho chamou a atenção de Daniel... Mas ele não pode entender o que fora.

 

— Acha que deveríamos voltar lá? E investigar melhor? — pergunta Daniel.

— Os esgotos? Eu não sei... Talvez no próximo aniversário do Koncrite— diz Rodrigo.

— Daqui a um ano?! — pergunta Daniel. Rodrigo responde:

— Qual é a pressa? Tenho certeza de que nosso pequeno acidente conseguiu lavar os canos direito!

— Eu andei pesquisando essas edições mais antigas do Bule... E acho que tanto a gente quanto o Koncrite, fizemos a curva par ao lado errado.

— Senhor Daniel, derramando o chá com imparcialidade... como é próprio para alguém do Bule!

— Um ano me parece bom para tomar essas decisões e investigar melhor...— diz Vicente, com o olhar fixo nos detalhes do túmulo.

— É... Vamos deixar que um ano nos encaminhe melhor aos nossos futuros rumos — diz Rodrigo.

 

   Um pequeno rápido brilho, dessa vez, perturbou e irritou a Vicente, que também ficara incerto do que teria sido, ou se fora apenas impressão. Olhou ao redor por um breve momento, a procura da possível causa, sem localizar nada.

 

   O trio já ia saindo do cemitério, com Rodrigo comentado sobre o rumor de que algum ponto do esgoto seria uma fonte secreta de adamantita, quando Daniel resolve retornar para lá. Estranhando, Rodrigo pergunta:

— O que foi? Esquecera alguma coisa?

— É só uma coisinha que eu quero deixar como homenagem ao senhor Biaf.

— Tá certo... Eu já tenho de ir. Não vai querer a carona mesmo?

— Eu posso levar o rapaz, Dantes.

— Estou vazando então. Tchau pra vocês dois! despediu-se Rodrigo.

— Dantes... chamou Vicente a Rodrigo, que ao virar-se, recebe na testa a caneta Vorpal atirado por Vicente.

— Hmpf...!!! VOCÊ TÁ DOIDO?

— Deveria estar com seus reflexos heróicos em dia... senhor Dantes!

 

   Voltando a seguir seu caminho, de costas, Rodrigo dá o dedo para Vicente, seguindo em direção ao carro estacionado, enquanto Vicente recolhe sua caneta Vorpal do chão.

 

   No túmulo de Hamir Biaf, agachado, Daniel deposita despejando o mofo da ampola na sua base. Observa por um breve momento o pôr-do-sol que iluminava os túmulos. Limpa as mãos, espalmando uma na outra, e se retira do cemitério.

 

   Pouco depois, fechava a porta do carro de Vicente, sentado no lado do carona. Este, dando a partida no motor do carro, comenta:

— O nosso amigo parece estar resistindo ao talento dele... Não acha que poderia... dar um empurrãozinho? A Cidade é sempre tão necessitada de heróis.

— Eu acho que o... senhor Dantes... está se preparando para nos fazer uma revelação quanto a sua futura carreira profissional em breve... Só nos resta mesmo esperar com paciência... Senhor Ducatti.

 

⁂

 

   Já prestes a partir, Rodrigo, com um belo sorriso confiante, deu a volta para entrar em seu carro esporte conversível, e sentou-se na cadeira do motorista. Ajeitou o retrovisor, pôs a marcha, acelerou e saiu voando com ele.

 

   Daquela grande altura em que se encontrava, podia ver todo o longo paredão do Nasca branquíssimo de ponta a ponta.

 

   Vendo um ENORME castelo de cartas no lugar do edifício Bextar, o edifício Sylum Erkhem aparentemente de cabeça pra baixo, assim como outras distorções suspeitas dos vários prédios que conhecia, crescia aquela estranha sensação de que havia alguma coisa de errado... OK, era um sonho: no outdoor da alameda M Corleone, uma propaganda do novo disco dos Splitz, viu que escreveram s no lugar de z. Splitz escrito com s! Estaria em algum tipo de realidade alternativa? Um sonho... Como era possível? A avenida R Kuklinski parecia ainda mais real do que conhecera – tinha até um pipoqueiro! E quando tinha adormecido mesmo?

 

   Ao olhar no retrovisor, viu atrás de si, batendo suas longas asas, a dragonesa! Rodrigo buzina. Vê pelo retrovisor o dragonesa girar seu pesado corpo para fazer uma curva entre os prédios, e decide acompanhá-lo em seu carro voador.

 

   Houve até um tocador de sax se empolgando em seu solo.

 

   Pouco depois, a majestosa criatura pousava graciosa como se fosse uma pluma. Com as rodas do carro já arrastados na calçada numa derrapada precisa, Rodrigo estaciona, puxando o freio de mão. Antes mesmo de sair do carro, um bilhete de multa fora colocado no retrovisor por um policial surgido do nada, que se não era o Gurgel, parecia muito com ele, apesar do fardamento estar em verde escuro. O oficial não lhe disse nada, não trocam palavras. O policial monta em seu unicórnio, e sai trotando para multar algum outro.

 

   Finalmente conferindo o bilhete de multa, Rodrigo vê que este tinha uma enorme marca de beijo de batom. Incerto e ligeiramente temeroso de seu significado, ele amassa o papel da multa, e joga para trás.

 

   Após caminhar um pouco, parando diante da dragonesa, Rodrigo diz:

— Sabe dragonesa, eu vim a aprender que a Cidade está precisando mesmo é de detetives, e é isso que eu vou fazer daqui em diante. Voltar as raízes. Talvez você possa me ajudar com essa nova fase de minha carreira.

— Nem pensar! Você não pode ficar dependendo de um grande réptil pra sempre!

— Eu sei disso... Mas... Acha que é uma boa ideia que eu treine para ser um super-herói? Fazendo uso de capa e tudo, até mesmo... usando uma cueca por cima da calça?

 

   Subitamente sob a forma de bela mulher, a dragonesa diz:

— Já tivemos essa conversa antes, Dantes. O que está em seu coração?

— Oh...! Não faça isso que eu me apaixono, meu bom réptil!

 

   Não fora uma boa ideia dizer aquilo. A dragonesa se transforma: estava no lugar de sua face a mais grotesca, nojenta e terrível... era melhor nem descrever.

 

— NÃO NÃO! VOLTA PRA MOÇA!!!

 

   Rodrigo alivia-se do horror que vira, com a dragonesa de volta a forma daquelas graciosas formas femininas. A dragonesa continua:

— Se reparar bem, Rodrigo, durante todo este tempo em que temera e duvidara... Você sempre teve dentro de sei tudo que precisa para seguir confiantemente o seu caminho. Mas... posso te dar ainda uma última dica: você já foi no cruzamento da Kathryn Beaumont?

— Eu já não fui? — disse Rodrigo, seguindo com os olhos o rato que passava bem detrás da dragonesa, levando um grande pedaço de comida segurado pela boca.

— Estou falando recentemente, seu bocó!

— Posso usar meu superconversível para isso?

— Pode. Mas não estarei mais lá para auxiliá-lo.

— Então... Essa é mesmo a última vez que a gente se vê?

— Você sabe que eu posso assumir muitas formas.

— É verdade... Antes de você sumir de vez, deixa eu te mostrar uma coisa!

 

   Após malabarizar com sua telecinese seis carros como se não passassem de pequenas bolas, fazendo círculos e giros com eles, os atira aleatoriamente nos prédios em frente, criando uma considerável levantar de fumaça e destruição.

 

— Não é bacana?! Estou praticando com ameixas secas e outras frutinhas do tipo... A escala não é exatamente a mesma, mas... estou me preparando para praticar com livros, tijolos, e assim por diante. Aumentando aos poucos.

 

   A dragonesa não parecia minimamente impressionada.

 

— Hey, dragonesa...

— O que?  — disse a criatura, interrompendo uma cutucada que fazia com a bocarra nas unhas do dedo do pé.

— Você sabe que... no fundo, no fundo, é só uma lagartixa do meu subconsciente?

 

   A dragonesa dá uma suspeita mexida no rabo.

 

— Não precisa ficar zangada... NEM SE MONSTRIFIQUE!!!

— Você não passa de um ex-jornalista, com um talento mediado por medicação. Não se vanglorie, Clorêncio Silvelino!

— Ah não... Você não, dragonesa! Meu nome é...!

 

   A dragonesa não quis saber da opinião de Rodrigo quanto ao nome que lhe era ideal: subitamente levantou vôo na batida de suas longas asas, e em pleno vôo por cima da Cidade, berra a plenos pulmões:

— CLLAAAAAARAAAAAAAAANCEEEEE!!!

 

Rodrigo comenta, o observando partir no horizonte por entre os arranha-céus:

— Até quem sabe um dia desses, dragonesa... ESPERA!!! O que é... Sherlock?

 

   Foi naquele momento em que acordou, e com aquele estado agitado, um impulso de uma telecinese acidental derruba um retrato que tinha a cabeceira.

 

— RODRIGO! HMPF! ME DEIXE DORMIR! — queixava-se Virgínia deitada na cama ao lado de Rodrigo, com visor lhe cobrindo os olhos — Eu tenho que acordar cedo, e você fica nessa cutucação!

— Desculpe meu bem... Volte a dormir.

 

   Virgínia volta a se aconchegar em seus lençóis. E o descamisado Rodrigo diz consigo em voz baixa:

— Eu chego lá... Um dia, eu chego lá!

 

⁂

 

   No Nasca, alguns trabalhadores da construção civil trabalhavam na sua reforma. Um deles, que vinha com duas latas de tinta e argamassa para assumir seu posto, tem um breve momento de incomodo, com uma folha de jornal lhe grudando na sola do sapato. Após conseguir livrar-se dele com pequenos ‘coices’, juntou-se aos colegas que comentavam:

— Eu disse que era furada apostar no retorno de Weishaupt

— Fale por você! Eu ganhei sessenta e seis narcos com o último jogo!

— Apostando no contra? Que tipo de fã é você?!?

— Desde que ele se enrabichou por aquela modelo dos carros Abraham eu sabia que o rendimento ia ficar a desejar.

— É... Esses passes errados dele são mesmo suspeitos...

 

   Um operário mais velho, reparando no serviço do colega ao lado, aconselha:

— Ô meu filho, retoque os buracos! NÃO cubra as marcas!

— Mas parecia sujeira!

— Essa é a marca dos Maculosos... é assim mesmo! Dizem que representa o sangue espalhado por um tiro, entende?

 

   Um outro operário próximo chama a atenção dos colegas:

— Olha. Olha lá. fala ele, em voz baixa. Os demais operários se viram para ver.

 

   Alguns homens jovens mal-encarados, de óculos escuros, pareciam ocupados em observá-los do outro lado da rua. Percebendo a situação, toda a conversação se passa então em voz baixa entre eles.

 

— Eu fiz tudo que podia pra evitar esse trabalho... !

— Você acha que eles são dos Caveirossos, ou dos Corujitos? sussurrou um dos operários, olhando sisgueirado para os homens do outro lado.

— Eu não sei... Não disseram para termos maior atenção ao símbolo da águia de duas cabeças

— Ninguém me disse isso.

— Pois é.

— Esse trabalho na construção civil não está com nada...! É por isso que eu... estou cultivando meu talento.

— Você vai tomar...? — perguntou o colega, mas o outro não responde, senão, pelo próprio ato: olhou de um lado, olhou do outro, e entendendo-se seguro, tomou uma pequena pílula roxa.

— Por que estava sendo proibido mesmo?

— Eu te digo o porquê: eles não gostam de que nada seja barato!

— Eles? Quem são eles?

— Você não sabe?

 

   Suas vozes sussurrantes se perdiam ao se distanciar daquelas intermináveis sequências de prédios ao longo da avenida... E na famosa a avenida Joannes Patmos 2011, logo após a entrada da Ladelândia, a branquíssima Cadeira do Prefeito... continuava vazia.

 

 

Posted Mar 5, 2026, 2:29 AM UTC

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