A vida depois do eco
Minha vida depois do eco é outra. Minha voz transmite outra onda, outra nota, outra frequência... mais peculiar, aguda, inaudível, impossível de se separar. Sugestões viram fatos. Pedidos se tornam em ordens, e desejos imaginários se tornam realidade.
Isso me mudou. A velha história do poder e do homem, mais velha que o próprio tempo. No começo, sua ansiedade é contida por uma outra voz, um som mais interior, mais maduro - o superego, a sua consciência, aquela parte de você dos velhos tempos, que costumava seguir as regras. Mas isso dura pouco.
Se torna chato segurar as rédeas o tempo todo. A curiosidade bate. No início, você tenta coisas pequenas. Um guardanapo adicional no fast-food. Uma gentileza no elevador. Um pedido para trocar a rádio no Uber.
Mas isso se torna cansativo numa rapidez surpreendente. Cada vez mais é tentador empurrar os limites. Cada vez mais sedutor testar a criatividade.
E em pouco tempo, você se vê num shopping, mas ao contrário dos outros, você não veio levar produtos pra casa.
E em poucos minutos, você está de volta em casa, e a campainha toca.
Eu abro a porta e recepciono os três. Ele, ela, mas sobretudo ELE.
O eco me proporcionou muitas coisas, incluindo a possibilidade de satisfazer meus instintos mais profundos. Não existe mais moral, ou receio, ou medo. Só existe o que eu quero, e eu consigo.
As vozes do mundo exterior não me afetam mais. Eu posso ter ELE comigo, fazer o que é necessário, e apagar. Desfazer.
Existe algum peso moral se a resultante efetiva, a contribuição final - é zero?
Se ninguém ouviu a árvore cair no meio da floresta - e ainda por cima, a árvore se rematerializou magicamente - ela realmente caiu, algum dia?
Posted Apr 5, 2026, 2:57 AM UTC