A única pessoa que mais amei não está mais aqui.
É até meio difícil começar isso aqui.
Eu sou um homem, e na madrugada do dia 03 soube do falecimento da minha ex-namorada. Era uma madrugada normal, eu assistindo qualquer besteira quando pego o celular e vejo em um grupo qualquer do WhatsApp uma foto de um passe de ônibus de uma menina e na legenda dizia que ela tinha sido atropelada e estava em péssimo estado. Apesar da imagem não ter uma qualidade tão boa, eu achei o rosto um tanto quanto familiar, e quando li o nome dela ali nem consegui acreditar. Estado de choque total.
Ela foi minha primeira namorada, e sem dúvidas quem mais amei. Por ter sido a minha primeira namorada, muitas das minhas primeiras experiências, e não digo somente sexuais, foram com ela. 2 adolescentes inexperientes navegando pelas complexidades da vida, jurando que estariam juntos pra sempre, promessas de um futuro, filhos juntos e coisas do tipo.
Conheci ela durante um período da minha vida em que tava fazendo o médio e em uma outra cidade, portanto, depois de terminar o médio, voltei pra minha cidade, e embora a gente tenha tentado fazer as coisas darem certo mesmo estando distante, acabamos terminando. Não deu pra continuar. A gente tinha perspectivas de vida que provavelmente nos levariam pra caminhos diferentes e eu não queria que ela ''ajustasse'' os projectos pessoais dela só pra caber nos meus e a gente continuar junto. Paramos de falar, as vidas seguiram. E assim foi.
Meses depois, descubro que ela tinha ido morar em Portugal com a mãe. Corta pra alguns meses depois eu ganhando uma bolsa de estudos pra estudar em Portugal também. Foram vários os dias em que eu pensei em procurar por ela, mandar uma mensagem, e quem sabe recomeçar?? A gente não estava na mesma cidade, mas era relativamente próximo. 1hr e pouco de ônibus e eu estava lá. Daria pra ficar junto nem que fosse 1x ou 2 por semana. Mas eu preferi deixar as coisas do jeito que estavam. Achei que ela estaria melhor assim e que era melhor deixar ela assim. Mas ela nunca saiu da minha cabeça. Dia 31 do mês passado foi aniversário dela, e mais uma vez pensei em fazer isso. Mas, mais uma vez acabei deixando as coisas como estavam. E agora ela se foi e não importa o quão eu pense em voltar atrás, não será possível mais. Nunca mais.
Lidar com a morte dela tem sido uma experiência angustiante e bizarra. Não consegui chorar até agora. É como se fosse um baque tão forte num nível que existe todo um bloqueio. Eu escuto as músicas que ela gostava, lembrando de memórias com ela, sobre como ela era alguém que enxergava valor na simplicidade das coisas, da vida. Sobre como a gente sair andando na rua e olhar o pôr-do-sol depois da escola era o que tornava o nosso dia melhor. Mas as lágrimas não aparecem. Meus amigos choraram. Meu irmão chorou. Mas eu simplesmente não consigo. Me sinto no fundo do poço, sinto que de certa forma passei a amar menos a vida depois disso que aconteceu, como se uma parte dela perdesse de facto o sentido. Sinto que o esforço humano é inglório perante o absurdismo da vida. Todos os planos e projeções que fazemos para o futuro, até que ponto de facto importam?
Por fim, uma das coisas mais perturbadoras que percebi nesse momento de tristeza é sobre o quanto a vida é dinâmica diante da finitude do ser humano. Estamos todos chorando hoje, e quando você percebe, o amanhã chegou e as pessoas enxugaram as lágrimas e estão se preparando pra seguir com as suas vidas como se nada tivesse acontecido. Como se de nada adiantasse manter aquela pessoa ''existindo''. Saber que somos uma manada e estamos todos no buraco juntos dando força uns aos outros, mas uma hora o pessoal precisa de sair desse buraco pra ir comer, beber água, seguir a vida. Mas eu estou machucado, minhas patas estão tão ''danificadas'' que eu não vou conseguir sair desse buraco, então eu lentamente vejo o pessoal do grupo saindo desse buraco, 1 por 1, até que só reste eu lá, olhando o pessoal coletando frutas, caçando e bebendo água do rio. E eu lá. Agonizando até a morte. E nem posso culpar o pessoal por ter me deixado no buraco. Eles me deram comida enquanto eu estava lá de vez em quando. Me deram água, frutas. Mas uma hora se torna insustentável.
Posted Apr 6, 2026, 1:11 AM UTC