Review de Mixtape

SpoilerDiscussão

Mixtape prova que bons gráficos e boas musicas não são o bastante para fazer uma obra prima. Como uma experiência curta e intimista sobre amizade, juventude e o último dia juntos, o título me surpreendeu: um simulador de caminhada colorido, nostálgico e cheio de saudosismo. É uma experiência especial, imperfeita, mas capaz de deixar uma marca emocional bonita para quem conseguir se identificar com sua atmosfera.

A história é simplória, mas funciona muito bem dentro do que propõe. Trata-se do último dia que três amigos passam juntos antes de seguirem caminhos diferentes. Não há grandes reviravoltas, apenas dramas adolescentes exagerados.

O título aborda temas como ansiedade, controle parental tóxico e a perda da juventude de forma sensível. Quero deixar claro que esta infância retratada no jogo passa bem longe da minha própria infância, tive uma criação muito pobre e nasci depois dos anos 2000, portanto não me identifiquei e sequer entendi boa parte das referências e do clima nostálgico. Ainda assim, estou avaliando o que vejo no jogo, e não pela minha experiência de vida pessoal. Dito isso, o título romantiza excessivamente os anos 80/90, flertando com o passado através de lembranças hormonais e pintando-os como uma era mágica de liberdade, enquanto suaviza ou ignora aspectos problemáticos como alcoolismo juvenil, uso de drogas, vandalismo e rebeldia autodestrutiva.

A jogabilidade é extremamente simples e fluida, um simulador de caminhada pontuado por diversos minigames interessantes e bem integrados. Nada revolucionário, mas executado com carinho e bom gosto.

O que realmente carrega Mixtape são seus dois grandes pontos fortes: a direção de arte e a trilha sonora. Visualmente, o jogo é lindo. Os ambientes são vibrantes, detalhados e cheios de vida, com personagens que lembram o estilo de Arcane. A trilha sonora é excelente, com várias músicas que eu não conhecia, e a forma como a música e a imagem conversam é quase mesmerizante.

Há uma cena em que o policial "malvado" interrompe um dos monólogos excêntricos de Stacey para responder com uma referência afiada de Leonard Cohen. Desde então, essa sequência não sai da minha cabeça.

Olhando com generosidade, o momento revela uma verdade incômoda que muitos jogadores que se identificam com a Stacey preferem ignorar: as pessoas ao nosso redor, mesmo aquelas que odiamos ou que são completamente opostas a nós, ainda são pessoas. Elas têm vida, se relacionam com arte e podem nos surpreender com referências que julgávamos exclusivas. Mas, como quase sempre acontece em Mixtape, o jogo chega perto de dizer algo profundo e logo recua. Em vez de explorar essa tensão, a resolução é simplesmente Stacey gritando com ele, ignorando que se trata do pai de sua própria amiga.

Vi o jogo ser chamado de “fascista”, e embora não ache que chegue a esse extremo, ele flerta perigosamente com a ideia de que as outras pessoas são NPCs na vida da protagonista. Stacey não é apenas o centro da narrativa — ela é o centro da realidade. Todos ao redor existem para orbitar suas emoções, a ponto de pedirem desculpas por coisas que ela mesma causou.

Stacey é uma protagonista extremamente autocentrada e até vazia em alguns pontos do jogo. Ela não quer criar música, quer ser music supervisor. Quer controlar a trilha sonora da vida dos outros, mas não tem curiosidade real pela arte em si. É o tipo de pessoa que trata cultura como acessório de identidade.

As comparações com Life is Strange são inevitáveis, mas injustas com o primeiro jogo. Enquanto LiS usava sua nostalgia, gírias e needle drops com intenção clara para retratar estagnação emocional e isolamento, Mixtape faz tudo de forma superficial e sem consciência. Stacey é basicamente o que os haters mais radicais de LiS imaginam que Max e Chloe sejam: egoístas, paradas no tempo e presas em uma bolha de autocomiseração.

Apesar de tudo, recomendo Mixtape para fãs de jogos indie, walking simulators e experiências curtas e atmosféricas e pessoas que estão afim de conhecer musicas novas de uma forma diferente. É barato, bonito e tem coração, mesmo que, às vezes, esse coração seja oco e olhe para o passado com lentes cor-de-rosa.

É um projeto pequeno, bonito e provavelmente foi feito pros próprios criadores do que pra nós players. Carrega um saudosismo forte, mas também uma sinceridade. Como bem observou Søren Kierkegaard: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.”

Posted May 11, 2026, 5:30 AM UTC

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