Eu não sei

depressão

Eu não sei o que eu tô fazendo aqui. Eu não sei nem como falar isso aqui, mas eu precisava tirar isso de dentro de mim.

Minha vida nos últimos anos mudou muito. Eu saí de um país que eu achava que eu não tinha futuro e vim para um país onde eu tive muitas oportunidades, onde eu cresci, onde eu me desenvolvi, onde eu criei e abri muitas portas. E hoje eu me vejo aqui, trancado em um apartamento, sozinho, sem ninguém, sem emprego, sem esperança.

Eu casei há um ano atrás. Meu marido é mais novo, mas não sinto a presença dele. Sinto que, mesmo casado, estou sozinho, como se brincassem com os meus sentimentos, se afastando sempre quando ele tem vontade e se aproximando quando ele precisa.

Eu não tenho ninguém. Descobri o meu diagnóstico de bipolaridade, meu transtorno de personalidade e tudo isso me sufoca todos os dias. Acho que a única coisa que me impede de me livrar desses sentimentos e tirar essa dor de dentro de mim, saindo desse campo de vida, desistindo dessa vida, é o meu gato. Há quem se sente tão preso quanto eu, porque eu não tenho forças para cuidar dele. Pelo contrário, eu acho que eu mais maltrato do que cuido, por não ter forças pra nada.

Eu fiquei empurrando mês a mês, achando que o próximo mês seria melhor, que eu conseguiria, que mudaria a situação, mas nada mudou. Tudo fica cada vez pior. Eu me olho no espelho e não me reconheço mais. Não tenho mais estrutura, não tenho mais força, não tenho mais plano, não tenho mais expectativa.

Eu sinto que a minha vida não existe. Que eu sou um corpo vazio. É como se não tivesse mais nada aqui.

Eu busquei na minha religião as respostas. Pratiquei para me encontrar, pra me sentir abraçado, e mesmo nela perdi as esperanças. Eu não quero mais isso. A cada dia que passa eu desisto mais um pouco e me aproximo mais do fim da vida. Que vida? Não acho que seja mais uma vida.

Eu só fico pensando: se não fosse o meu gato, eu ainda estaria aqui?

Fico a todo momento pensando num jeito de partir desse mundo e a única coisa que me prende aqui é não saber como cuidar do meu gato, é deixá-lo pra trás. Mas eu acho que essa é a única possibilidade, porque eu não tenho nada.

Eu sou cercado de bons móveis, uma boa vida que eu fico perdendo a cada dia, porque o financeiro vai acabando. Já acabou, na verdade. E eu não sei como eu vou sobreviver no próximo mês. Não sei como eu vou cuidar de mim, como eu vou cuidar dele.

Meu marido não entende isso, não vê isso, não sente isso. Eu levo tudo isso sozinho, sem família, sem amigos, muitas vezes trancado dentro do quarto, falando em chats com pessoas destrutivas, me sexualizando pra não doer tanto.

E agora eu tô aqui, achando uma forma de externalizar isso antes de me despedir de mim mesmo.

Eu escrevi tantos textos de despedida. Eu já fiz tantos textos, eu já tentei tantas formas, mas eu não consegui. Nem isso eu consigo. Até isso pra mim é difícil.

Eu não sei. Não sei se eu tenho mais tempo. Não sei se eu vou conseguir sair dessa.

Eu peço desculpas e perdão todos os dias por querer desistir. Cada dia eu me aproximo mais dessa decisão do fim da vida. Ninguém vê isso porque eu externalizo uma fachada, uma mentira. Eu mesmo me destruo todos os dias.

Não sei se faz mais sentido estar aqui. Não tenho mais forças pra lutar. Eu não quero mais.

Não sei se isso faz sentido. Eu não sei porque eu tô escrevendo isso aqui.

Eu peço perdão e sinto que esse é o momento. Às vezes eu penso no próximo mês e então, a cada momento que passa, cada hora que passa, eu tento aceitar a visão de que essa vida não faz mais sentido. Aceitar que o caminho único, a decisão única a se tomar, é não estar mais aqui.

Perdão. Eu sinto muito. Eu sou grato. Mas eu sou fraco. Eu não consigo. Eu desisto.

E a única coisa que me mantém aqui, todos os dias, de alguma forma… eu encontrei paz no labirinto lá.

Posted May 28, 2026, 5:05 PM UTC

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