há alguém mais?
caem as pálpebras, pesadas, em meio ao torpor do láudano e, por vezes, a realidade não é mais que a aridez de um deserto que cega. areia em redemoinhos, moinhos de vento, rodamoinhos e tessituras – o corpo, a mente, tudo se cansa, parte-se numa miríade de partículas quase imperceptíveis àquele olho nu, exposto, àquele olho grande que seca, até mesmo, o próprio querer–
os olhos, tenta abri-los… tenta alcançar… mas, como num devaneio, numa fantasia, os contornos se afastam e ressoam
o repique dos sinos
ao longe
onde…?
.
.
.
tenta erguer-se, porém, o corpo não obedece: abandona-se, escorrega, a murrinha encobrindo todo intento, todo propósito, ao que desiste, por fim: os cílios acortinam-se e o entorno desvanece
de novo
onde está…? os dedos, hesitantes, ensaiam uma busca, peregrinam pela superfície cerosa da chaise-longue, onde supõe estar e não estar, galhos e folhas se enroscando; e pronto desistem, dando-se por vencidos, o langor persistente
despenca, não, sobe
e ali, nas nuvens, à deriva, pertinho do céu e sem poder tocá-lo, acessá-lo, reivindicá-lo, não com as mãos conspurcadas, reconhece o cheiro de fumo, tabaco e notas de cereja, o ruído de papéis, o riscar da pena: ou, talvez, seja impressão; é incapaz de enxergar, do alto… ou das profundezas, quiçá? nuvens de vapor, de mormaço… o paraíso e o inferno confundem-se, sobrepõem-se: sequer a linha do horizonte os separa, os limites borrados, borrão de tinta nas águas, o que é, senão uma ilusão, isto ou aquilo, o que são, senão…? a realidade vai-se esfumando,
esfumaçando,
e abrir caminho é lutar contra correntes que puxam um ser? o que é um ser que já não luta…? larga-se e se estira no fundo da garrafa, da garrafinha que ora continha bela figura, ora caveira em rótulos ilustrados, ópio e álcool, testavam, quarenta por cento, afunda nas reminiscências de um sonho por trás das pálpebras cerradas… fragmentos, sempre rastros, pedaços do que foi e nunca a totalidade do que é, perdendo-se em linhas emboladas ou partidas… para sempre perdidas. os dedos tateando as ramas com botões… deixando-as ir…
as crianças correm, tantas delas, vingaram apenas cinco a agarrar as saias e chamar um nome que se esfacela aos cacos no chão de madeira nobre sem que consiga trazê-los e dar-lhe sentidos outros que não gracejos, escárnios, a elas não culpava, e eram os lustres do Theatro tão belos! castelos celestes sob os quais adejavam, o braço do esposo conduzindo num enlace ao passarinho seu – chama-lhe, no íntimo, assim – e pudesse…! pudesse ser mais do que é…! cingindo-lhe a mão, a cintura, pelos salões, como um troféu, carne de sua carne e sangue de seu sangue, mas como bombear, como bombear o sentimento sem dispor de um coração…
que ausente se faz porque morre, isto, morre em permanente espetáculo?
imagens a beira do nada; tudo se esfumaça e não incendeia, não dessa vez: onde há fumaça nem sempre há fogo, apenas fogos fátuos, tranquiliza-se (a despeito dos ecos distantes de risos e suspiros que, abafados, mais parecem queixas ou choros… o crepitar das chamas e o fragor das ondas quando o primo acudiu-lhe em noite enevoada com doces, doces juras e par de alianças, na ponta da língua e na língua dos anjos, como fosse nada, como fosse tudo
a ele os dedos procuram, agora, nas brumas… sorrindo de canto (como se…!), tenta, outra vez, abrir as cortinas, em vão, e se esquecendo, prostra-se num arrastar,
à espera de que encontrem seus restos entre banzeiros,
e a mão esquerda se derrama ao lado do leito, resvalando em
caracóis? macios, tão macios. estranha estas largas espirais por onde os dedos passeiam, entram e se perdem, incertos do que fazem e continuam a fazer; e, ali, nas nuvens, rodeia, circunda, esconde-se e se acha, metendo-se em tocas, ninhos e brenhas, até as raízes num agrado que não carece de palavras, qualquer coisa de anterior ao pensamento; pois não pensa, não se pensa
um cafuné,
poderia ser e ater-se para sempre a mais pura gentileza, se no mais fundo de toda mansidão, de toda lassidão, não quisesse, descendo,
agarrá-los,
puxá-los,
sua espada.
— Baltazar?
— hm…?
a vibração, nas pontas dos dedos, é como um ronronar que acalma, por ora, o que há de torpe nisto que chama de–
— Podemos sair? Quero ver a cidade.
e, sem resposta, continua:
— Ir à praça ou ao bosque, com os meninos, nas horas mansas... ou à ópera, ao cinematógrafo, àquele que inaugurou, tu e eu... Quem sabe assistir aos festejos do povo? Sonhos, tantos sonhos... A procissão, o arraial... em que mês estamos…? — um chiste, abafado (ele ri?) — Quero passar pela Maison, ou pela Rua dos Mercadores. Dirás que os atravessadores tudo nos conseguem; bem o sei, mas... — tenta domar a voz de taquara rachada, conservar o registro baixo — queria ver com meus próprios olhos… misturar-nos ao pessoal smart nos cafés e nos clubes, ou sob as árvores e as luzes da nossa petit Paris, e fingir, só um instante, só um pouquinho, que somos como eles... ou assustá-los, se preferires. Mas, se estiveres cansado dessas pilhérias, e eu bem o compreenderia, querido, podemos...
e os dedos vão parando, e a voz vai morrendo, e vai ficando o silêncio, porque ele não responde. fica o mormaço.
— Claro. — E, de repente, o timbre firme de Baltazar; o baque pesado de um livro que se fecha, o arrastar de uma cadeira. — Minha doce Perpétua, tão pronto melhores, havemos de sair — A voz aproxima-se à medida que os passos atravessam o recinto, até que mãos rijas, conhecidas, se lhe metem por baixo e lhe alçam o corpo; o farfalhar do organdi e do tulle. Baltazar. Sim, Baltazar. Nos braços do primo poderá repousar como naquela noite; e a mão pendente resvala, uma derradeira vez, pelos caracóis, pelas nuvens, antes de subir… pois sim, agora sobe, e sente o rosto do esposo, tão próximo ao seu; o respirar afoito de menino, as cerejas.
e o aroma quente, balsâmico e amadeirado dos ombros, do pescoço, ao qual se aninha.
terroso.
terreno.
— Mas, por ora, deves descansar. — Baltazar beija-lhe a testa, ao que assente, ou julga assentir, o murmurar disperso, os olhos cerrando… a mão pendente… por onde esteve? faz menção de erguê-la, alcançar o rosto do marido; as forças se lhe esvaem
os traços vão-se dissipando,
— Mel, importa-te esperar um instante? Deixo Perpétua com Brígida e volto já.
há alguém mais? tenta alçar-se, espiar por sobre o ombro de Baltazar, mas afunda outra vez. ao ranger inconfundível da porta segue-se um bocejo comprido, quase felino que, desfeito, dá lugar à outra voz, grave e ainda espessa de sono:
— Tome o tempo que precisar, senhor capitão. Eu espero.
e, com um clique discreto, a porta fecha-se.
Posted Jun 27, 2026, 10:15 AM UTC