A consulta de psicologia que chamam recrutamento em IT está presa ao passado?
Quero lançar uma discussão, sobretudo para quem trabalha em IT.
Tenho uma condição pessoal que, muito provavelmente, me teria eliminado de muitos processos de recrutamento em Portugal antes sequer de chegar à fase técnica. Curiosamente, desde que cheguei dos Estados Unidos, passei consistentemente pelas fases iniciais e cheguei às entrevistas técnicas nas empresas que realmente me interessavam.
Isto fez-me pensar.
Em Portugal continua a existir uma dependência enorme de processos de recrutamento filtrados por RH e avaliações comportamentais que, muitas vezes, parecem privilegiar pessoas "normais", previsíveis e alinhadas com um determinado padrão.
Mas será que é isso que a indústria tecnológica precisa?
Grande parte das pessoas que fizeram algo verdadeiramente relevante na tecnologia nunca encaixou totalmente nos padrões sociais convencionais: criatividade, obsessão por resolver problemas, pensamento pouco convencional, capacidade de adaptação e curiosidade quase compulsiva são características comuns em muitos excelentes engenheiros.
No entanto, muitos processos de recrutamento parecem tratar essas características como potenciais riscos em vez de vantagens.
Há aqui uma ironia interessante: a porta de entrada de uma empresa tecnológica raramente é um engenheiro sénior, um arquitecto de software ou alguém que perceba profundamente do trabalho que vai ser feito, é frequentemente alguém cuja função principal é decidir quem merece ou não chegar à entrevista técnica.
E isso é preocupante.
O recrutamento é provavelmente a função com maior impacto no futuro de uma empresa, se a porta de entrada elimina pessoas competentes porque não encaixam num perfil psicológico pré-definido, a empresa começa logo por limitar o seu próprio potencial.
Não admira que muitas empresas se queixem constantemente da falta de talento.
Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos já se começa a assistir a uma redução significativa de funções administrativas e até de RH devido à automação e à IA. A IBM afirmou ter automatizado uma grande parte das tarefas rotineiras de Recursos Humanos com IA, reduzindo centenas de funções administrativas enquanto reforçava equipas técnicas noutras áreas. Também empresas como Amazon, Meta, Workday e outras têm vindo a reestruturar funções corporativas e administrativas para investir mais em engenharia e IA.
Talvez seja altura de repensar qual o papel dos RH e por quem deve ser desempenhe, num mercado (e NOVO MUNDO) onde a tecnologia evolui ao ritmo actual, talvez faça mais sentido que a avaliação técnica e do potencial seja feita por quem realmente conhece a profissão.
No fim do dia, uma empresa é tão boa quanto as pessoas que consegue contratar e se a porta de entrada estiver desalinhada com aquilo que a empresa realmente precisa, dificilmente o resto do edifício será sólido.
Para terminar, os psicólogos recrutadores, são pagos para excluir muita das vezes quem tem comportamentos de julgamento e comportamentos "tóxicos" entre outros, porém, se repararem, eles mesmos têm de julgar, sendo assim, será que quem os RH têm de excluir são a eles mesmos?
Posted Jul 3, 2026, 7:59 AM UTC