Parte 1

Quando abri os olhos, estava sentado no centro de uma praça colorida demais para parecer real.

O céu era cheio de redemoinhos de cores impossíveis, e os prédios pareciam feitos de brinquedos gigantes.

Tentei me levantar, mas minhas mãos não eram mais humanas.

Gato: — O quê...? — murmurei.

Antes que pudesse entender, uma voz alegre ecoou pelo lugar:

Azul: — Bem-vindo ao espetáculo! Espero que goste da sua nova vida!

Em um brilho de confete, ele apareceu.

Era uma criatura de pelagem azul-clara com detalhes em azul mais escuro,

olhos grandes e a língua comprida pendendo para fora da boca, o que lhe dava uma expressão divertida e boba.

Sua cauda era listrada em vários tons de azul, e as patas possuíam garras e amortecedores amarelos.

Seu visual cartunesco combinava perfeitamente com o sorriso alegre que estampava o rosto.

Em sua cabeça havia uma cartola de cor azul escuro, com uma listra em azul claro,

Azul: — O que foi? O gato comeu sua língua? — ele perguntou.

Eu ia responder que aquilo não fazia sentido, mas parei.

Gato: — Gato?

Baixei o olhar para minhas patas.

Gato: — Ah.

Era eu o gato.

Eu era um gato preto antropomórfico. Tinha o corpo ereto, patas dianteiras capazes de segurar objetos e uma longa cauda escura balançando atrás de mim. Meus olhos bretos brilhavam contra a pelagem negra.

Azul: — A... Nossa! Onde estão meus modos? Eu me chamo Azul, e quem seria você? — ele virou de cabeça para baixo e começou a flutuar ao meu

redor, mexendo as pernas como se estivesse caminhando no ar. — Na verdade, eu sei quem você é. Mas como VOCÊ se descreveria?

Gato: — Uma... "pessoa" normal? — respondi.

Azul: — E o que seria normal para você?

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Gato: — Ter mãos seria um bom começo.

Azul olhou para minhas patas.

Azul: — Ah, então você era do tipo mãos!

Gato: — Do tipo mãos?

Azul: — Sim! Alguns têm mãos, outros tentáculos, outros asas...

Gato: — Não, eu quero dizer que eu ERA humano!

Azul piscou.

Azul: — E qual a diferença?

Abri a boca para responder, mas nenhuma resposta veio.

Em vez disso, outra pergunta escapou.

Gato: — Como eu vim parar aqui?

Azul: — Boa pergunta!

Gato: — Você sabe?

Azul: — Sei.

Gato: — Então me conta!

Azul: — Mas você não perguntou qual é a cor favorita dos dinossauros primeiro.

Gato: — O quê?

Azul: — É uma pergunta muito importante.

Gato: — Não é mais importante do que descobrir por que virei um gato!

Azul: — Discordo.

Gato: — Azul!

Azul: — Verde.

Gato: — O quê?

Azul: — Minha cor favorita de dinossauro.

Gato: — Isso nem faz sentido!

Azul: — Faz tanto sentido quanto um gato falando.

Levei uma pata ao rosto.

Azul: — Bem, isso pode esperar! Venha conhecer os outros!

Gato: — Esperar? Eu virei um gato!

Azul: — Exatamente. Você já percebeu. Então essa parte está resolvida.

Antes que eu pudesse reclamar, Azul já estava flutuando pela rua.

Soltei um suspiro e o segui.

Seguimos até uma estrada colorida que atravessava a cidade.

Azul: — Diga uma cor.

Gato: — O quê?

Azul: — Qualquer cor!

Gato: — Ah... roxo?

Azul: — Perfeito!

Azul estalou os dedos.

Um Fusca roxo surgiu bem na nossa frente, e meus olhos ficaram na cor roxa.

Azul: — Pronto. Entre, vamos até sua casa.

Gato: — Minha casa?

Azul: — Sua nova casa.

Azul entrou no banco do motorista.

Ainda confuso, entrei no banco do passageiro.

O motor ligou e começamos a percorrer a cidade.

Observei as construções passando pela janela.

Gato: — Por que aqui tudo parece que foi feito por uma criança? Tipo, olha aquelas árvores.

Apontei para uma árvore com um tronco de cilindro e uma copa que parecia uma esfera verde com textura de folhas.

Azul: — Ei! — protestou Azul. — Deu trabalho modelar essa cidade!

Gato: — Então foi você?

Azul: — Claro.

Gato: — Você poderia ter caprichado um pouco mais.

Azul: — Você está sendo muito crítico para alguém que acordou faz cinco minutos.

Revirei os olhos e voltei a olhar pela janela.

Enquanto dirigíamos pela cidade, observei as ruas coloridas passando diante de mim.

Um cachorro amarelo caminhava pela calçada carregando uma sacola de compras.

Assim como eu, ele era antropomórfico.

Gato: — Então eu não sou o único?

Azul: — Único o quê? — perguntou Azul.

Gato: — Animal.

Azul: — Ah, não.

Gato: — Então todo mundo aqui é um animal?

Azul: — Nem de longe.

Gato: — Então o que eles são?

Azul: — Eles.

O Azul estacionou o Fusca em frente a um prédio colorido de vários andares.

Azul: — Chegamos na sua casa! — anunciou, animado.

Observei o prédio por alguns segundos.

Gato: — Um apartamento?

Azul: — Uma casa com vizinhos.

Gato: — Isso é um apartamento.

Azul: — Você vai ficar aqui reclamando ou vai logo ver sua casa?

Gato: — Apartamento.

Azul: — Casa.

Gato: — Apartamento.

Azul: — Casa.

Gato: — Aparta-

Azul: — Casa! — interrompeu Azul, apontando para a entrada.

Nós passamos pela recepção vazia e entramos no elevador. Azul apertou um dos botões e as portas se fecharam.

O elevador começou a subir.

Gato: — Qual andar? — perguntei.

Azul: — Sim.

Gato: — Isso não responde a pergunta.

Azul: — Eu sei.

Poucos segundos depois, as portas se abriram.

Azul saiu do elevador como se estivesse desfilando e eu o segui pelo corredor colorido. Depois de algumas portas, ele parou em frente a uma delas.

Azul: — E aqui estamos!

Ele abriu a porta e fez uma reverência exagerada.

Azul: — Sua casa!

Entrei.

Gato: — Nossa, achei que seria menor aqui.

O quarto era surpreendentemente espaçoso. As paredes eram pintadas em vários tons de roxo, misturados com azul-escuro, lilás e algumas cores que combinavam perfeitamente entre si. Havia uma cama, uma estante, uma escrivaninha e até uma pequena varanda.

Azul: — Gostou? — perguntou Azul.

Gato: — É melhor do que eu esperava.

Azul: — Eu escolhi as cores baseado em você.

Gato: — Você me conhece há menos de uma hora.

Azul: — Exatamente.

Gato: — Isso não faz sentido.

Azul: — Faz para mim.

Ignorei a resposta e continuei explorando o lugar.

Logo encontrei outra porta.

Ao abri-la, encontrei o que aparentemente era o banheiro.

Ou pelo menos uma tentativa de banheiro.

Havia uma pia.

E uma caixa de areia.

Fiquei alguns segundos encarando aquilo.

Gato: — Você n-

Azul: — Sim — respondeu Azul imediatamente.

Gato: — Eu nem terminei a frase.

Azul: — E eu já sei qual era.

Apontei para a caixa de areia.

Gato: — Isso é uma caixa de areia!

Azul: — Exatamente.

Gato: — Isso não é um banheiro!

Azul: — Para você é.

Gato: — Eu era humano!

Azul: — E agora você é um gato.

Voltei a olhar para a caixa.

Gato: — Eu não vou usar isso.

Azul: — Você não precisa.

Gato: — O quê?

Azul: — Vocês não sentem tudo o que sentiam lá.

Gato: — Lá onde?

Azul: — No lugar de onde vieram.

Gato: — Terra?

Azul: — Esse é um dos nomes.

Franzi a testa.

Gato: — Então eu não preciso comer?

Azul: — Precisa.

Gato: — Beber?

Azul: — Precisa.

Gato: — Dormir?

Azul: — Precisa.

Gato: — E isso?

Apontei novamente para a caixa de areia.

Azul: — Isso eu deixei de fora.

Gato: — Você deixou de fora?

Azul: — Claro. Eu estava criando um mundo divertido, não um mundo perfeito.

Gato: — Então por que colocar a caixa?

Azul ficou em silêncio por alguns segundos.

Azul: — Porque é engraçado.

Eu encarei a caixa.

Depois encarei Azul.

Depois a caixa novamente.

Gato: — Justo.

Resolvi testar a cama.

Pulei sobre ela.

No mesmo instante, senti algo prender.

Olhei para baixo.

Minhas garras estavam enroscadas no cobertor.

Gato: — Ah.

Tentei puxar a pata.

Consegui apenas me prender mais.

Puxei a outra.

Agora as duas estavam presas.

Azul: — Precisa de ajuda? — perguntou Azul.

Gato: — Não.

Azul: — Você parece precisar.

Gato: — Eu consigo sair sozinho.

Tentei novamente.

Fiquei ainda mais preso.

Azul: — Definitivamente precisa de ajuda.

Antes que eu pudesse reclamar, Azul deu um puxão no cobertor e soltou minhas garras.

Caí de costas na cama.

Gato: — Obrigado.

Azul: — Disponha.

Gato: — Eu odeio ser um gato.

Azul: — Você só é um gato há alguns minutos. Dê uma chance.

Bufei.

Gato: — Certo. E agora?

Azul: — Agora?

Gato: — Sim. O que eu faço?

Azul: — O que você quiser.

Gato: — E se eu não quiser fazer nada?

Azul: — Então você não faz nada.

Gato: — E depois?

Azul: — Continua não fazendo nada.

Gato: — Isso parece entediante.

Azul: — Exatamente por isso eu trouxe uma agenda.

Azul puxou um enorme pedaço de papel do nada.

Ele se desenrolou pelo chão.

Azul: — Às três horas: conhecer os moradores.

Gato: — Que horas são?

Azul: — Três horas.

Gato: — Claro que são.

Azul: — Vamos?

Guardei a agenda gigante de volta para ele — ou pelo menos tentei. Não havia bolso algum para guardar aquilo.

Azul simplesmente fez o papel desaparecer.

Gato: — Isso é muito injusto.

Azul: — Eu sei.

Saímos do apartamento e seguimos pelo corredor.

Pouco depois, entramos no elevador.

As portas se fecharam.

Observei meu reflexo na parede.

Ainda era estranho ver um gato me encarando de volta.

O elevador começou a descer.

Gato: — Isso tudo parece um sonho.

Azul: — Não é.

Gato: — Eu morri?

Azul: — Também não.

Gato: — Tô em coma?

Azul: — Não.

Gato: — Então o que é?

Azul ficou em silêncio por alguns segundos.

Pela primeira vez desde que eu o conheci, ele tirou seu chapéu e abaixou a cabeça. Ele parou de sorrir, e pareceu pensar na resposta. Ele realmente parou pra pensar, não como faz normalmente. ele parou e demorou alguns segundos, em silêncio completo.

Azul: — Minha cidade.

Olhei para ele.

Azul: — Sua cidade?

Azul: — Eu criei as ruas, os prédios, os apartamentos, os parques... tudo.

Gato: — Por quê?

As portas do elevador se abriram.

Azul voltou a sorrir e botou novamente seu chapéu na cabeça.

Azul: — Mas isso é conversa para depois. Vamos conhecer seus vizinhos!

Saímos do prédio e seguimos pela calçada.

Logo avistei aquele cachorro amarelo caminhando pela rua carregando uma sacola de compras de antes.

Observei o cachorro por alguns segundos.

Sua pelagem era amarela, mas o que mais chamava atenção eram seus olhos vermelhos.

Então uma coisa me ocorreu.

Meu quarto era roxo.

O Fusca era roxo.

Meus olhos eram roxos.

Olhei novamente para o cachorro.

Olhos vermelhos.

Gato: — Espera.

Azul me olhou.

Azul: — O quê?

Gato: — Você fez meu quarto, meu carro roxo e meus olhos roxos por causa da cor que escolhi?

Azul: — Sim.

Gato: — Ah.

Isso explicava bastante coisa.

Azul: — Ei! — gritou Azul para o cachorro.

O cachorro virou a cabeça.

Azul: — Você recebeu o convite?

Cachorro: — Que convite?

Azul: — O que eu deixei embaixo da sua porta.

Cachorro: :— Eu nem parei para olhar o que tinha embaixo da porta.

Azul suspirou dramaticamente.

Cachorro: — Isso explica muita coisa.

O cachorro deu de ombros.

Cachorro: — Estava ocupado.

Azul: — Não importa! Estamos indo agora mesmo.

Cachorro: — Indo para onde?

Azul: — Surpresa.

Cachorro: — Eu odeio surpresas.

Azul: — Ótimo! Então vai ser ainda mais surpreendente.

O cachorro pareceu considerar fugir.

Cachorro: — Eu posso ir andando.

Azul: — Bobagem! Eu dou carona!

Azul apontou para o Fusca roxo estacionado na frente do prédio.

Gato: — No meu carro? — perguntei.

Azul: — Eu que dei o carro.

Gato: — Ainda é meu carro.

Azul: — Nosso carro.

Gato: — Não.

Azul: — Meio carro?

Gato: — Não.

Azul: — Um quarto do carro?

Gato: — Azul.

Azul: — Certo, certo. Seu carro.

O cachorro observou a discussão por alguns segundos.

Gato: — Vocês fazem isso o tempo todo?

Azul: — Fazemos o quê? — perguntou Azul.

Cachorro: — Isso.

Gato: — Sim — respondi.

Azul: — Nós nos conhecemos há menos de uma hora — respondeu Azul ao mesmo tempo.

O cachorro piscou.

Cachorro: — Ah.

Entramos no Fusca.

Eu e o cachorro fomos para o banco de trás.

Azul sentou no banco do motorista.

Azul: — Todos prontos?

Gato/Cachorro: — Não — eu e o cachorro respondemos juntos.

Azul: — Excelente!

E ligou o carro.

O carro começou a andar.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Eu encarava a janela.

O cachorro encarava a janela.

Azul cantarolava alguma música aleatória enquanto dirigia.

Cachorro: — Então... — disse o cachorro.

Gato: — Então... — respondi.

Ficamos em silêncio novamente.

Cachorro: — Você chegou quando? — ele perguntou.

Gato: — Hoje.

Cachorro: — Ah.

Gato: — E você?

Cachorro: — Faz um tempo.

Gato: — Quanto tempo?

Cachorro: — Não faço ideia.

Olhei para ele.

Gato: — Você também acordou aqui do nada?

Cachorro: — Sim.

Gato: — E ele apareceu?

Apontei para Azul.

Cachorro: — Em um monte de confete? — perguntou o cachorro.

Gato: — Sim.

Cachorro: — Falando sem parar?

Gato: — Sim.

Cachorro: — Faz sentido.

Azul: — Eu estou ouvindo vocês — disse Azul do banco da frente.

Cachorro: — Essa era a ideia — respondeu o cachorro.

Azul: — Ah.

O silêncio voltou por alguns segundos.

Cachorro: — Deixa eu adivinhar — disse o cachorro.

Gato: — O quê?

Cachorro: — Você já perguntou se isso era um sonho.

Gato: — Sim.

Cachorro: — Se você morreu.

Gato: — Sim.

Cachorro: — Se está em coma.

Gato: — Sim.

Cachorro: — E ele respondeu tudo com respostas estranhas.

Gato: — Sim.

Cachorro: — Faz sentido.

Azul: — Eu dou respostas perfeitamente normais — reclamou Azul.

Gato: — Você literalmente chamou um apartamento de casa — falei.

Azul: — Porque é uma casa com vizinhos.

Gato: — Isso continua sendo um apartamento.

Azul: — Discordo.

O cachorro soltou uma risada.

Cachorro: — Você ainda não perguntou, né?

Gato: — Perguntei o quê?

Ele apoiou o braço na janela.

Cachorro: — Como sair daqui.

Olhei para ele.

Gato: — Ainda não.

Cachorro: — Ah.

Gato: — Mas eu estava pensando nisso.

Cachorro: — Faz sentido.

Gato: — E então?

Cachorro: — Então o quê?

Gato: — Tem como?

O cachorro abriu a boca para responder.

Azul: — Olha! — interrompeu Azul. — Estamos chegando!

Gato: — Ele faz isso toda vez? — perguntei.

Cachorro: — Toda vez — respondeu o cachorro.

Gato: — Faz sentido.

Poucos segundos depois, Azul estacionou o Fusca.

Olhei pela janela.

O estacionamento estava lotado.

De Fuscas.

Apenas Fuscas.

Verde.

Laranja.

Azul.

Gato: — Por favor, me diz que existem outros modelos de carro aqui.

Azul: — Existem.

Gato: — Sério?

Azul: — Não.

Saímos do carro.

O cachorro pegou sua sacola novamente e seguiu atrás de Azul.

Eu os acompanhei.

Azul empurrou a porta de entrada.

O cheiro de café tomou conta do ambiente.

Olhei ao redor.

Havia algumas mesas espalhadas pelo salão, mas apenas uma delas parecia ocupada.

Sentados perto da janela estavam dois moradores do mesmo apartamento que eu.

Uma sapa verde mexia distraidamente em uma xícara.

Ao lado dela, um coelho de olhos laranja estava largado na cadeira como se preferisse estar em qualquer outro lugar.

Assim que os viu, Azul abriu os braços dramaticamente.

Azul: — Viu, Cachorro? Tem gente que lê meus convites!

Sapa:— Eu leio todos — respondeu a sapa.

Azul: — Você é minha moradora favorita.

Sapa: — Você disse isso para mim ontem.

Azul: — Porque continua sendo verdade.

Azul então virou para o coelho.

Azul: — E você?

Coelho: — Eu tentei não vir.

Azul: — Mas veio.

Coelho: — Infelizmente.

Azul: — Isso também conta como vitória.

Coelho: — Não conta.

Azul: — Conta sim.

Coelho: — Não conta.

Azul: — Conta.

Coelho: — Azul, eu literalmente passei os últimos dez minutos pensando em desculpas para não aparecer.

Azul: — Mas apareceu.

O coelho ficou em silêncio por alguns segundos.

Coelho: — Odeio quando você usa lógica.

Azul: — Eu também adoro você.

Coelho: — Eu não disse isso.

Azul: — Eu ouvi nas entrelinhas.

Coelho: — Não tinha entrelinhas.

Azul: — Tinha sim.

A sapa tomou um gole do café.

Sapa: — Vocês já terminaram?

Azul: — Nunca — respondeu Azul.

Azul puxou uma cadeira e sentou.

Eu fiz o mesmo.

O Cachorro sentou ao meu lado.

O Coelho continuou afundado na cadeira.

A Sapa continuou tomando café.

Gato: — Então... vocês também acordaram aqui do nada?

Sapa: — Sim.

Cachorro: — Sim.

Coelho: — Infelizmente.

Azul: — Eu não.

Todos olharam para ele.

Azul: — Eu moro aqui.

Gato: — Quanto tempo vocês estão aqui?

Sapa: — Alguns anos.

Cachorro: — Acho que também.

Coelho: — Tempo demais.

Azul: — Três horas.

Gato: — Você criou o lugar.

Azul: — Exatamente.

Gato: — Então como só está aqui há três horas?

Azul: — Porque acordei às onze.

Sapa: — Não tenta entender tudo o que ele fala.

Gato: — Eu percebi isso.

Sapa: — Vai ser melhor para sua saúde mental.

Coelho: — Ainda temos saúde mental?

Sapa: — Eu espero que sim.

Gato: — Qual era sua vida antes daqui?

Cachorro: — Não lembro muito.

Gato: — Sério?

Cachorro: — Algumas coisas.

Gato: — Tipo?

Cachorro: — Eu gostava de pão.

Gato: — Só isso?

Cachorro: — É uma lembrança importante.

Um boneco cinza claro, quase branco, sem nenhuma característica além de um rostinho simples desenhado no lugar do rosto, se aproximou da mesa.

NPC: — Olá, já sabem o que vão pedir?

Azul: — Café!

Cachorro: — Café.

Gato: — ...Café.

NPC: — Perfeito, irei preparar.

Ele se virou e caminhou até a cozinha com passos calmos.

Gato: — Esse é outra pessoa?

Sapa: — Não. Aqui tem alguns "NPCs" que fazem os trabalhos que precisam de alguém.

Gato: — NPCs?

Sapa: — É como chamamos eles. Eles não vivem aqui como nós.

Gato: — Então o que vocês fazem aqui?

Cachorro: — O Azul geralmente cria algum desafio ou atividade para nós fazermos, geralmente uma por dia.

Azul: — Não é bem “desafio”. São experiências.

Coelho: — São obrigações disfarçadas de diversão.

Azul: — Isso é uma interpretação muito negativa.

Coelho: — É uma interpretação correta.

Azul: — Discordo.

Gato: — E se alguém não quiser participar?

Cachorro: — Nunca vi alguém tentar.

Coelho: — Eu tento todo dia.

Gato: — E?

Coelho: — E falho todo dia.

Silêncio.

Azul: — Porque você acaba indo mesmo assim.

Coelho: — Porque vocês são insuportáveis.

Azul: — Obrigado!

Coelho: — Não era elogio.

Azul: — Ainda assim, aceito.

Sapa tomou mais um gole do café, como se isso fosse apenas mais uma manhã normal.

A mesa ficou em silêncio por alguns segundos.

Eu olhei para Azul.

Gato: — Então... existe alguma saída daqui?

O Cachorro parou de mexer na bebida.

A Sapa olhou para Azul.

Até o Coelho levantou um pouco a cabeça.

Antes que Azul respondesse, ele abriu um sorriso.

Azul: — Ótima pergunta!

Gato: — Então?

Azul: — Podemos conversar sobre isso depois.

Gato: — Depois?

Azul: — Claro! Primeiro temos a atividade de hoje!

Coelho: — Eu sabia.

Azul: — Sabia o quê?

Coelho: — Que você ia mudar de assunto.

Azul: — Eu não mudei de assunto.

Coelho: — Mudou.

Azul: — Eu apenas coloquei outro assunto na frente.

Coelho: — Isso é literalmente mudar de assunto.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Vamos?

Antes que alguém respondesse, ele estalou os dedos.

Tudo desapareceu.

A mesa.

O café.

O prédio.

Eu senti meu corpo perder o apoio e caí no chão.

Gato: — Ai...

Olhei ao redor.

Não havia nada.

Apenas um vazio infinito.

Cachorro: — Ele esqueceu de avisar de novo.

Gato: — De novo?

Coelho: — Você vai se acostumar.

Olhei para cima.

Azul estava sentado.

No ar.

Como se ainda estivesse na cadeira do café.

Gato: — Como você está fazendo isso?

Azul olhou para baixo.

Azul: — Ah! Verdade.

Ele desceu lentamente até o chão.

Azul: — Opa! Desculpa.

Coelho: — Você podia ter avisado.

Azul: — Anotado.

Ele tirou um pequeno post-it do nada e escreveu alguma coisa.

Coelho: — Você está anotando agora?

Azul: — Sim.

Coelho: — Depois de fazer?

Azul: — Melhor tarde do que nunca.

Ele guardou o post-it.

Azul: — Certo! A atividade de hoje será uma aventura!

Ele começou a mexer as mãos no ar.

Não como um truque, mas como se estivesse desenhando algo invisível.

Linhas começaram a aparecer ao redor dele.

Primeiro o chão.

Depois árvores.

Depois uma trilha que atravessava uma floresta.

Tudo surgia seguindo os movimentos das patas de Azul.

Gato: — Você está criando isso agora?

Azul: — Sim!

Ele continuou mexendo as mãos enquanto montanhas apareciam ao longe.

Azul: — Eu pensei em algo divertido, com obstáculos, desafios e...

Ele parou.

Silêncio.

Azul colocou a pata no queixo.

Azul: — Ah.

Coelho: — O quê?

Azul pegou o post-it novamente.

Azul: — Eu anotei "colocar um prêmio no final".

Coelho: — E?

Azul: — Eu esqueci de anotar qual era o prêmio.

Coelho fechou os olhos.

Coelho: — Claro que esqueceu.

Azul: — Mas a ideia continua boa!

Coelho: — A ideia era literalmente o prêmio.

Azul: — Detalhes.

Sapa: — Podemos começar?

Azul olhou para a floresta recém-criada.

Azul: — Sim!

Ele apontou para a entrada da trilha.

Azul: — O objetivo é simples: chegar até o final.

Gato: — E o que acontece se a gente perder?

Azul sorriu.

Azul: — Aí vocês descobrem.

E nós começamos a andar pela trilha.

O caminho parecia sólido… mas não exatamente estável.

As árvores surgiam conforme a gente avançava, como se o mundo estivesse sendo criado ainda.

O Cachorro caminhava na frente com calma, como se aquilo fosse só mais um dia normal.

O Coelho vinha logo atrás, olhando tudo com desconfiança.

Coelho: — “Aí vocês descobrem”… adoro quando isso envolve perigo implícito.

Sapa: — Ele não disse que é perigoso.

Coelho: — Ele não precisa dizer.

Azul ia flutuando um pouco acima do chão, mexendo as pernas como se estivesse andando, só que no ar

Gato: — Você literalmente está editando o mundo enquanto a gente anda.

Azul: — Uhum!

Gato: — Isso não te cansa?

Azul: — Cansa?

Ele pareceu pensar por meio segundo.

Azul: — Ah não. Nunca testei.

Cachorro: — Ele não testa muitas coisas.

Coelho: — Isso explica tudo.

A trilha se dividiu em dois caminhos idênticos.

Eu parei.

Gato: — Certo. Isso parece uma escolha óbvia com pegadinha.

Sapa: — Ou pode ser só um caminho dividido.

Coelho: — Em um mundo criado por ele? Duvido.

Azul pousou no chão pela primeira vez desde que começamos a andar.

Ele olhou os dois caminhos como se fossem… decoração.

Azul: — Hm.

Ele inclinou a cabeça.

Azul: — Eu fiz os dois iguais?

Cachorro: — Fez.

Azul: — Legal.

Coelho: — Isso não ajuda.

Azul: — Não precisa ajudar, só precisa existir.

Ele estalou os dedos.

Os dois caminhos mudaram um pouco.

Agora um tinha pequenas estrelas flutuando no ar.

O outro tinha pequenas setas apontando pra frente.

Gato: — Isso foi literalmente você escolhendo por nós.

Azul: — Eu chamo de “facilitar decisões”.

Coelho: — Eu chamo de “falta de escolha”.

Sapa: — O da esquerda parece mais estável.

Cachorro: — O da direita parece mais divertido.

Silêncio.

Todos olharam pra mim.

Gato: — Por que estão me olhando?

Coelho: — Você é novo. Decide.

Gato: — Isso não é como funciona decisão em grupo.

Olhei pros dois caminhos.

Suspirei.

Gato: — Esquerda.

Azul: — Perfeito!

Ele estalou os dedos.

O caminho da esquerda “reagiu”, ficando mais firme, como se tivesse sido aprovado pelo mundo.

Azul: — Próxima etapa!

Cachorro: — Já?

Azul: — Já!

Sapa: — Ainda nem caminhamos muito.

Azul: — Mas já tivemos emoção.

Coelho: — Não tivemos emoção. Tivemos uma decisão falsa.

Azul: — Emoção pode ser isso também!

Continuamos andando.

O silêncio voltou aos poucos.

Mas agora não era desconfortável.

Era só… estranho.

Como se o mundo estivesse esperando algo acontecer mais pra frente.

E eu também.

A trilha continuou por alguns minutos.

Até que o Azul parou do nada.

Azul: — Espera!

Todos paramos junto.

Coelho: — Lá vem.

Azul flutuou um pouco pra frente e abriu um sorriso.

Azul: — Pequena pausa obrigatória de aventura!

Cachorro: — Por quê?

Azul: — Porque sim!

Ele estalou os dedos.

Do nada, surgiu à nossa frente uma espécie de pedestal simples com algo em cima: uma placa quadrada, como se fosse uma moldura vazia.

Gato: — Isso é um quadro?

Azul: — Quase!

Coelho: — Eu já não gosto disso.

Azul apontou para a moldura.

Azul: — Enigma rápido! Se acertarem, ganham… motivação.

Sapa: — Isso não é um prêmio.

Azul: — É sim. Emocional.

Cachorro: — Tá.

Azul sorriu ainda mais.

Azul: — O que é o que é: quanto mais você tira, mais você tem?

Silêncio.

O Coelho cruzou os braços.

Coelho: — Isso é o tipo de coisa que ele inventa quando esquece de planejar.

Azul: — Eu não esqueço. Eu deixo em aberto para criatividade.

Gato: — “Quanto mais você tira, mais você tem…”

Olhei para a moldura vazia.

Sapa: — Pode ser algo relacionado ao mundo dele…

Cachorro: — Ou algo simples.

Coelho: — Ou algo irritante.

Azul já estava claramente se divertindo.

Azul: — Dica: serve para guardar lembranças.

Fiquei olhando.

Até que me ocorreu uma coisa simples demais pra ser complicada.

Gato: — Foto.

Silêncio.

Azul congelou por meio segundo.

Depois abriu um sorriso enorme.

Azul: — CORRETO!

A moldura brilhou.

E, na moldura vazia, surgiu a imagem de uma câmera polaroid.

Azul estalou os dedos novamente e a moldura virou poeira de luz, que voltou a se misturar no caminho.

Azul: — Próxima etapa!

Gato: — Já?

Azul: — A aventura não anda sozinha!

Coelho: — Infelizmente, não.

E continuamos andando pela trilha.

Até que o Azul parou de andar.

Coelho: — Lá vem dor psicológica disfarçada de diversão.

Azul: — O desafio de agora é... Cidade Dorme!

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

Eu olhei para Azul.

Gato: — Cidade Dorme?

Azul abriu um sorriso enorme.

Azul: — Sim!

Coelho cruzou os braços.

Coelho: — Isso parece menos perigoso do que a floresta.

Sapa: — É só um jogo.

Coelho: — Quando o Azul diz "é só um jogo", normalmente significa que alguma coisa vai acontecer.

Azul colocou uma pata no peito, fingindo estar ofendido.

Azul: — Eu tenho uma reputação tão ruim assim?

Todos olharam para ele.

Azul: — ...Não precisa responder.

Ele estalou os dedos.

O chão começou a mudar.

A floresta desapareceu aos poucos, como se fosse um desenho sendo apagado. As árvores viraram pequenos pontos de luz e sumiram no ar.

No lugar delas surgiu uma grande sala redonda.

Havia uma mesa no centro com várias cadeiras ao redor.

Na parede, uma placa colorida escrita:

"CIDADE DORME"

Gato: — Você tinha isso pronto?

Azul: — Talvez.

Coelho: — Ele tinha.

Azul: — Talvez.

Sapa sentou em uma cadeira.

Sapa: — Pelo menos dessa vez ele avisou antes.

Cachorro sentou ao lado dela.

Cachorro: — Já é uma melhora.

Azul ignorou o comentário e apontou para o centro da sala.

Um boneco cinza apareceu.

Parecia igual aos outros NPCs, mas usava uma pequena gravata e segurava um papel.

NPC Narrador: — Olá, participantes.

Gato: — Ele fala?

NPC Narrador: — Sim.

Gato: — Ah.

NPC Narrador: — Isso foi decepcionante?

Gato: — Um pouco.

O NPC olhou para Azul.

NPC Narrador: — Confirme as regras.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Sem trapaça, sem usar poderes, sem mudar a sala e sem criar novas regras no meio.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Azul: — ...Eu posso tentar.

Coelho fechou os olhos.

Coelho: — Já começou errado.

NPC Narrador suspirou.

NPC Narrador: — Muito bem.

Ele começou a andar ao redor da mesa.

NPC Narrador: — Cada jogador receberá um papel secreto.

Pequenos cartões apareceram na frente de cada um.

O meu caiu na mesa.

Eu peguei o meu cartão.

Olhei.

Cidadão.

Virei o cartão rapidamente e deixei virado para baixo.

Olhando ao redor, todos pareciam fazer o mesmo.

NPC Narrador: — Ninguém pode revelar seu papel.

Azul levantou a pata.

Azul: — E se eu adivinhar?

NPC Narrador: — Não pode falar.

Azul: — E se eu falar sem querer?

NPC Narrador: — Não existe "sem querer".

Azul pensou.

Azul: — Então vou tentar querer não falar.

Coelho: — Isso é a coisa mais próxima de uma ameaça que ele já fez.

NPC Narrador ignorou.

NPC Narrador: — A cidade vai dormir.

A sala ficou mais escura.

NPC Narrador: — Todos fechem os olhos.

Eu fechei os olhos.

Por alguns segundos, só ouvi o silêncio.

Nada acontecia.

Então uma voz apareceu.

NPC Narrador: — Assassino, abra os olhos.

Continuei com os olhos fechados.

Eu não sabia quem tinha recebido aquele papel.

Apenas escutei alguns passos.

Depois de alguns segundos:

NPC Narrador: — Assassino, feche os olhos.

Silêncio.

NPC Narrador: — Médico, abra os olhos.

Mais alguns segundos.

NPC Narrador: — Médico, escolha alguém para proteger.

Silêncio novamente.

NPC Narrador: — Médico, feche os olhos.

Pausa.

NPC Narrador: — Detetive, abra os olhos.

Mais silêncio.

Eu fiquei parado.

Era estranho.

Mesmo sabendo que era apenas um jogo, parecia que todos estavam realmente escondendo algo.

NPC Narrador: — Detetive, escolha alguém.

Alguns segundos.

NPC Narrador: — Detetive, feche os olhos.

A sala ficou completamente quieta.

NPC Narrador: — A cidade acorda.

Abri os olhos.

Todos estavam sentados como antes.

O Coelho olhava para todos desconfiado.

O Cachorro parecia normal.

A Sapa apenas esperava.

E Azul...

Azul estava sorrindo.

Gato: — Por que você está sorrindo?

Azul: — Eu sempre sorrio.

Gato: — Isso é verdade.

Coelho apontou para ele.

Coelho: — Suspeito.

Azul: — Por quê?

Coelho: — Porque você parece suspeito.

Azul: — Essa é uma acusação muito fraca.

Coelho: — Funciona?

Sapa: — Não.

Coelho: — Droga.

NPC Narrador: — Durante a noite, ninguém foi eliminado.

Todos ficaram em silêncio.

Gato: — Ninguém?

NPC Narrador: — Ninguém.

Cachorro: — O médico salvou alguém.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Ou o assassino não fez nada.

Todo mundo olhou para ele.

Azul abaixou a pata.

Azul: — O quê?

Gato: — Você acabou de dar uma possibilidade.

Azul: — Sim.

Gato: — Para ajudar o jogo.

Azul: — Sim.

Coelho estreitou os olhos.

Coelho: — Isso é suspeito.

Azul: — Tudo que eu faço é suspeito para você.

Coelho: — Exatamente.

NPC Narrador: — Jogadores, discutam.

O grupo começou a olhar uns para os outros.

Pela primeira vez desde que cheguei naquele lugar, ninguém parecia saber exatamente o que fazer.

E isso era estranho.

Porque normalmente Azul era quem não sabia o que fazer.

Gato: — Certo...

Olhei para todos.

Gato: — Então agora temos que descobrir quem é o assassino.

Cachorro: — Sim.

Gato: — E ninguém sabe de nada.

Cachorro: — Sim.

Gato: — Isso parece difícil.

Cachorro: — Sim.

Parei.

Gato: — Você podia elaborar mais.

Cachorro deu de ombros.

Cachorro: — Estou pensando.

Coelho apontou para ele.

Coelho: — Isso foi mais suspeito do que qualquer coisa que ele fez.

Cachorro: — Eu só respondi.

Coelho: — Exatamente.

Sapa suspirou.

Sapa: — Vamos tentar usar lógica.

Todos ficaram em silêncio.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Eu tenho uma ideia.

Gato: — Qual?

Azul sorriu.

Azul: — Vamos votar.

Coelho: — Essa é a parte mais óbvia.

Azul: — Eu gosto de coisas óbvias.

Gato: — Isso explica muita coisa.

NPC Narrador levantou o papel.

NPC Narrador: — Comecem as acusações.

A sala ficou em silêncio.

Até o Azul parecia esperar.

E pela primeira vez...

ninguém sabia se ele estava brincando ou não.

A sala ficou em silêncio.

Todos olhavam uns para os outros.

Eu tentei pensar.

No começo, parecia simples.

O assassino precisava mentir.

Mas todo mundo ali era ruim de um jeito diferente em esconder coisas.

O Cachorro parecia tranquilo demais.

O Coelho parecia suspeito demais.

A Sapa parecia sensata demais.

E o Azul...

Bem.

Era o Azul.

Gato: — Certo. Vamos começar pelo mais óbvio.

Todos olharam para mim.

Gato: — Azul.

Azul piscou.

Azul: — Eu?

Gato: — Sim.

Azul: — Por quê?

Gato: — Porque você é o único aqui que criou o jogo.

Azul colocou uma pata no queixo.

Azul: — Isso é verdade.

Coelho: — Você está concordando?

Azul: — Sim.

Coelho: — Isso não ajuda sua defesa.

Azul: — Eu não estava me defendendo.

Gato: — Além disso, você sabe tudo que acontece aqui.

Azul: — Tecnicamente.

Gato: — Tecnicamente?

Azul: — Eu criei a sala. Não quer dizer que sei tudo.

Coelho: — Ele acabou de deixar mais suspeito.

Sapa olhou para Azul.

Sapa: — Você consegue ver os papéis?

Azul arregalou os olhos.

Azul: — Não!

Ele apontou para a própria cara.

Azul: — Quer dizer... não deveria.

Gato: — "Não deveria" não é a mesma coisa que "não consigo".

Azul ficou parado.

Azul: — Essa foi uma boa observação.

Cachorro: — Ele elogiou você.

Gato: — Eu percebi.

Azul: — Estou orgulhoso.

Coelho: — Isso está virando uma conversa sobre ele de novo.

Sapa: — Vamos votar em alguém.

NPC Narrador: — Decidam.

Olhei para os outros.

Gato: — Eu voto no Azul.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Justo.

Coelho: — Eu também.

Azul: — O quê?

Coelho: — Você é suspeito.

Azul: — Você só está me acusando porque eu existo.

Coelho: — Exatamente.

Cachorro levantou a pata devagar.

Cachorro: — Eu também.

Azul olhou para ele.

Azul: — Até você?

Cachorro: — Você parece o tipo de pessoa que faria isso.

Azul colocou uma pata no peito.

Azul: — Fui traído pelo meu próprio grupo.

Sapa levantou a pata.

Sapa: — Eu também.

Azul ficou olhando para todos.

Azul: — Isso parece pessoal.

Gato: — É uma votação.

Azul: — Uma votação pessoal.

NPC Narrador escreveu algo no papel.

NPC Narrador: — Azul foi eliminado.

Silêncio.

Azul olhou para o grupo.

Azul: — Tudo bem.

Ele levantou.

Azul: — Eu aceito minha derrota com maturidade.

Todos esperaram.

Azul: — Mas antes...

Coelho: — Não.

Azul: — Eu nem falei.

Coelho: — Eu sei.

Azul suspirou.

NPC Narrador: — Jogador eliminado não pode interferir.

Azul caminhou até o canto da sala.

Sentou em uma cadeira que apareceu do nada.

Gato: — Você colocou essa cadeira aí?

Azul levantou uma pata.

Azul: — Eu fui eliminado, não fui proibido de sentar confortável.

Gato: — Justo.

NPC Narrador: — Revelando papel.

Todos olharam para Azul.

Ele virou o cartão.

O símbolo apareceu.

Cidadão.

Ninguém falou nada.

Por alguns segundos.

Coelho abaixou as orelhas.

Coelho: — Ótimo.

Gato: — Erramos.

Sapa: — Sim.

Azul sorriu.

Azul: — Eu sabia que vocês confiavam em mim.

Todos olharam para ele.

Azul: — Ou não.

Ele pensou.

Azul: — Provavelmente não.

Coelho apontou.

Coelho: — Isso foi irritante.

Azul: — Obrigado.

NPC Narrador: — A cidade dorme novamente.

Todos fecharam os olhos.

Dessa vez eu já sabia como funcionava.

O silêncio voltou.

NPC Narrador: — Assassino, abra os olhos.

Eu continuei parado.

Tentando imaginar quem seria.

Alguns segundos.

NPC Narrador: — Assassino, escolha alguém.

Silêncio.

NPC Narrador: — Assassino, feche os olhos.

Pausa.

NPC Narrador: — Médico, abra os olhos.

Mais alguns segundos.

NPC Narrador: — Médico, escolha alguém para salvar.

Silêncio.

NPC Narrador: — Médico, feche os olhos.

Pausa.

NPC Narrador: — Detetive, abra os olhos.

O jogo continuava.

Mas agora parecia diferente.

Porque Azul estava fora.

E sem ele atrapalhando...

era muito mais difícil saber o que estava acontecendo.

NPC Narrador: — A cidade acorda.

Abri os olhos.

Olhei ao redor.

Uma cadeira estava vazia.

O NPC olhou para as anotações.

NPC Narrador: — Durante a noite...

Ele fez uma pausa.

NPC Narrador: — Alguém foi eliminado.

Todos ficaram sérios.

Até o Coelho parou de reclamar.

Gato: — Quem?

O NPC olhou para a mesa.

E apontou.

NPC Narrador: — Cachorro.

Olhei para o lado.

A cadeira do Cachorro estava vazia.

Gato: — O quê?

Sapa ficou surpresa.

Coelho levantou.

Coelho: — Espera.

Ele olhou para Azul.

Coelho: — Ele pode falar agora?

NPC Narrador: — Não.

Azul levantou uma pata.

Azul: — ...

Ele fechou a boca.

Coelho: — Estranho.

Gato: — Você ia falar?

Azul balançou a cabeça negativamente.

NPC Narrador: — Cachorro foi eliminado.

A sala ficou quieta.

Gato: — Então o assassino está entre nós.

Sapa olhou para os três restantes.

Sapa.

Coelho.

Eu.

E Azul, sentado no canto.

Gato: — Certo...

Olhei para os outros.

Gato: — Agora ficou mais difícil.

Coelho: — Por quê?

Gato: — Porque eu tinha certeza que era o Azul.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Eu me sinto honrado.

Gato: — Você foi eliminado primeiro.

Azul abaixou a pata.

Azul: — Verdade.

NPC Narrador: — Segunda votação começa agora.

E dessa vez...

ninguém tinha certeza de nada.

NPC Narrador: — Segunda votação começa agora.

A sala ficou em silêncio novamente.

Mas dessa vez era diferente.

Antes, todos tinham um suspeito óbvio.

Agora...

O suspeito óbvio tinha sido eliminado (O Azul).

Olhei para a cadeira vazia do Cachorro.

Gato: — Então...

Parei por alguns segundos.

Gato: — Se o assassino conseguiu eliminar alguém...

Olhei para o Coelho.

Ele percebeu.

Coelho: — Você está olhando para mim.

Gato: — Porque você parece suspeito.

Coelho: — Essa é sua única prova?

Gato: — Não.

Coelho: — Qual é a outra?

Gato: — Você parece suspeito.

Coelho ficou em silêncio.

Coelho: — Isso continua sendo a mesma coisa.

Sapa suspirou.

Sapa: — Precisamos de algo mais concreto.

Olhei para Azul no canto da sala.

Ele estava sentado quieto.

O que era estranho.

Muito estranho.

Gato: — Azul.

Azul levantou a pata.

Azul: — Sim?

Gato: — Você sabe quem foi?

Azul balançou a cabeça negativamente.

Azul: — Não posso falar.

Coelho: — Mas sabe?

Azul olhou para ele.

Azul: — Talvez.

Coelho: — Isso é irritante.

Azul: — Obrigado.

Sapa olhou para todos.

Sapa: — Vamos pensar.

Ela cruzou os braços.

Sapa: — O assassino não escolheu alguém aleatório.

Gato: — Como assim?

Sapa: — O Cachorro era uma pessoa fácil de ignorar.

Coelho: — Isso foi uma ofensa?

Sapa: — Não.

Coelho: — Pareceu.

Sapa: — Mas se ele foi escolhido...

Ela olhou para a cadeira vazia.

Sapa: — Talvez fosse para tirar alguém tranquilo do jogo.

O Coelho ficou quieto.

Por alguns segundos.

Gato: — Você ficou quieto.

Coelho: — Eu estou pensando.

Gato: — Isso é raro.

Coelho: — Eu penso.

Gato: — Você reclama enquanto pensa.

Coelho: — E agora estou reclamando que você está me acusando.

Silêncio.

Azul levantou uma pata.

Azul: — Posso fazer uma observação?

Todos olharam para ele.

Coelho: — Você não pode falar.

Azul fechou a boca.

NPC Narrador: — Jogador eliminado não participa.

Azul apontou para o narrador.

Azul: — Ele está certo.

Coelho: — Você acabou de participar.

Azul abaixou a pata.

Azul: — Foi automático.

Gato: — Isso foi a coisa mais Azul que você poderia fazer.

Azul sorriu.

NPC Narrador: — Decidam.

Olhei para os outros.

Dessa vez...

Eu não tinha certeza.

Mas alguém precisava votar.

Gato: — Eu voto no Coelho.

O Coelho arregalou os olhos.

Coelho: — Sério?

Gato: — Você é o mais suspeito.

Coelho: — Essa frase de novo?

Gato: — Sim.

Sapa olhou para o Coelho.

Sapa: — Eu também.

O Coelho ficou parado.

Coelho: — Vocês estão errados.

Gato: — Talvez.

Coelho: — "Talvez"?

Gato: — Eu não tenho certeza.

Cachorro não estava aqui.

Azul não podia falar.

E a Sapa parecia estar confiando na minha decisão.

O Coelho olhou para todos.

Coelho: — Vocês realmente acham que eu seria tão óbvio?

Silêncio.

NPC Narrador escreveu.

NPC Narrador: — Coelho foi eliminado.

O Coelho levantou devagar.

Ele olhou para todos.

Coelho: — Finalmente.

Gato: — Finalmente?

Coelho sorriu de lado.

Coelho: — Eu estava cansado de fingir que não era eu.

Todos ficaram em silêncio.

Sapa: — Então...

Coelho virou o cartão.

O símbolo apareceu.

Assassino.

Gato: — Eu sabia.

Coelho: — Não sabia.

Gato: — Agora sei.

Coelho: — Isso é diferente.

Azul começou a bater palmas.

Azul: — Parabéns!

Todos olharam para ele.

Azul: — O jogo acabou!

NPC Narrador olhou para suas anotações.

NPC Narrador: — A cidade venceu.

Azul levantou.

Posted Jul 4, 2026, 6:23 PM UTC

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