A Preto e Branco (Texto)
Ontem acordei vazio.
Nem mesmo a chávena de café conseguiu preencher o espaço que havia em mim. Bebi-a por hábito, não por vontade. O sabor passou-me ao lado, como tantas outras coisas nesse dia.
Sem saber muito bem o que fazer comigo, deitei-me de novo.
Ora dormia. Ora acordava. Ora voltava a adormecer.
Um ciclo vicioso.
E, apesar de tudo isso, o relógio continuou a andar.
Engraçado... diferente de mim, o tempo nunca hesita.
Não espera que nos recomponhamos.
Não abranda porque há dias em que custa respirar um pouco mais.
Continua, indiferente, como se nada tivesse mudado.
Levantei-me sem fome. Comi na mesma.
Porque há dias em que até viver parece funcionar por obrigação.
Foi assim a minha manhã.
Cama. Café. Cama. Ridículo!
Talvez haja dias em que o maior esforço que fazemos seja simplesmente existir.
Ontem pensei que fosse apenas um dia mau.
Hoje acordei exatamente no mesmo lugar.
O café continuou sem saber a café.
A cama continuou a parecer mais segura do que o mundo lá fora.
E eu continuei à espera de que o tempo fizesse aquilo que eu não conseguia: seguir em frente.
Começo a desconfiar que já não estou a descansar.
Estou apenas à espera de que o dia se gaste.
No trabalho, nada mudou.
As pessoas falavam comigo.
Eu respondia - pelo menos acho que respondia.
A saudade de ti apertava-me o peito como quem pede espaço num lugar onde já quase não há ar.
Havia vozes à minha volta, conversas, risos... ordens até.
Mas era como se tudo acontecesse atrás de um vidro.
Os lábios mexiam, mas não conseguia ouvir ninguém.
E foi aí que percebi.
Hoje não estava cansado.
Nem triste.
Eu era apenas a chávena esquecida em cima da mesa.
Já fria.
Vazia.
Ninguém acorda assim de um dia para o outro.
O vazio instala-se devagar.
Primeiro rouba-nos a vontade. Depois, o apetite. Depois, as horas.
Até que um dia damos por nós a não esperar que aconteça alguma coisa.
Esperamos apenas que o dia acabe.
Posted Jul 8, 2026, 12:14 PM UTC