Um desabafo sobre SOP e pílula anticoncepcional
Senta que lá vem textão.
É interessante observar como nós vivemos em uma era em que o uso de hormônios é super incentivado e glamourizado nas redes sociais: testosterona, oxandrolona, GH, gestrinona e até mesmo outras substâncias proibidas, compradas e aplicadas de forma irregular, são divulgadas como algo miraculoso. Ao mesmo tempo em que pílulas anticoncepcionais, medicações vastamente pesquisadas, testadas e aprovadas de maneira séria são vendidas como a pior coisa que você pode fazer com o seu corpo. Até mesmo a reposição hormonal de estrogênio e progesterona em mulheres mais velhas ainda é vista de forma antiquada como algo extremamente arriscado.
A verdade é que qualquer medicação tem riscos e benefícios a serem analisados caso a caso. Obviamente, assim como qualquer medicação, as pílulas anticoncepcionais devem ser receitadas por um médico e você deve estar ciente de todos os riscos e possíveis efeitos colaterais associados ao seu uso. Isso envolve também você saber quais são os possíveis ganhos, de modo a estar bem informada, colocar os prós e os contras na balança e poder tomar a sua decisão de forma consciente.
Quando se fala de Síndrome de Ovários Policísticos SOP, mais recentemente chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina SOMP, a coisa fica ainda mais grave. Vários dos principais sintomas dessa doença são causados por desequilíbrios hormonais e predominância androgênica, ou seja, excesso de hormônios masculinos em comparação com os hormônios femininos. E aí a desinformação sobre a saúde da mulher abriu margem para vários picaretas e charlatões ganharem dinheiro, muito dinheiro.
Protocolo isso, protocolo aquilo, dieta antiinflamatória, excesso de cortisol, café da manhã anabólico, redução de carboidratos, cardio de baixo impacto, e obviamente aquela listinha marota de suplementos manipulados: inositol, cúrcuma, n-acetilcisteína... Tudo sem evidências científicas robustas, para criar problemas e vender soluções mirabolantes, afinal, ninguém vai ganhar grana ou ficar famoso falando sobre apenas se exercitar, comer e dormir bem.
Eu fui uma das que acabou caindo nesse papinho. Com SOP desde os 12 anos e todos os sintomas clássicos: acne absurda, queda de cabelo, sangramento intenso e frequente, pêlos corporais grossos, cólicas incapacitantes, ganho de peso. Comecei a tomar pílula anticoncepcional muito cedo, e ela sempre tinha dado certo, até que eu passei a ser bombardeada pela propaganda: não é normal tomar hormônios por toda a vida, a pílula tem uma lista de efeitos colaterais intermináveis, até a minha personalidade vai mudar, e eu vou acabar tendo uma trombose e morrendo. Pílula não trata a SOP! Pílula não é tratamento para nada!
Não importa que em outras doenças endócrinas seja necessário repôr os hormônios por toda a vida. É normal que eu tenha que tomar hormônios tireoidianos diariamente por toda a vida, já que meu corpo não os produz como deveria; mas tomar hormônios femininos a longo prazo já seria algo absurdo e perigoso.
Não é normal tomar anticoncepcional e parar de menstruar. Afinal, eu sou mulher, é natural passar pela menstruação! Se ela vier acompanhada de dores horríveis, enxaquecas, vontade de vomitar, pontadas debilitantes na barriga e muita perda de sangue, é só eu fazer um cházinho de orégano e tomar um suplemento de unha-de-gato.
Não faz sentido tomar hormônios só para tratar a acne. Existem tantas opções dermatológicas para isso! Não importa que você já tenha usado todos os ativos antiacne existentes, sempre existe um produto novo, um dermatologista diferente. Se mesmo assim não der certo, nada de fazer tratamento hormonal! É muito melhor usar roacutan, mesmo que seja um medicamento com efeitos colaterais bem mais graves que a pílula. E depois, não importa que nem o roacutan tenha resolvido, e que você esteja com cicatrizes na pele que nem os procedimentos estéticos mais caros e avançados vão resolver: alguma coisa você fez de errado.
Se você está engordando, o anticoncepcional vai ser um veneno! O negócio é aproveitar a predominância de testosterona para ganhar músculos na academia. Não importa que, na prática, não tenha vantagem nenhuma, e o que está acontecendo é que a sua distribuição de gordura mudou, e a gordura passou a ir para os braços, barriga e costas ao invés dos seios, glúteos e coxas. O negócio é parar de comer alimentos “inflamatórios”, reduzir glúten e carboidratos, keto, paleo, e comer cada vez mais proteína, proteína e proteína. Se o físico ainda assim não melhora porque eu não controlo os meus picos de insulina: não importa que exista a metformina, um tratamento para a resistência insulínica simples, bem conhecido e com poucos efeitos colaterais que custa menos de dez reais. O melhor mesmo é tomar todo dia dez suplementos diferentes de origens e efeitos duvidosos.
O cabelo está caindo, crescendo cada vez mais poroso e fino, e estou ficando com entradas na cabeça. Anticoncepcional? De jeito nenhum, tem que passar tônico no couro cabeludo todos os dias, usar shampoo anti-queda, comer a gominha da blogueira, ir na tricologista e gastar com tratamentos caríssimos com pouca ou nenhuma comprovação científica. Tem que usar minoxidil, mesmo que ele funcione mas seja extremamente tóxico para pets.
E se nada disso estiver dando certo? E se os sintomas só estiverem piorando, mesmo eu gastando cada vez mais tempo, esforço e principalmente muito dinheiro? Quem sabe eu só precise tentar algo diferente! Cada dia o mercado traz uma nova solução, alguma coisa com certeza irá funcionar. Não vale a pena correr o risco de desenvolver trombose, câncer de mama ou câncer do colo do útero. Não importa que ficar sentada em uma viagem de ônibus aumente muito mais os riscos de trombose do que tomar a pílula. Não importa que o aumento nos riscos de câncer seja muito pequeno e desapareça já alguns anos após a interrupção do tratamento. Não importa que a pílula anticoncepcional possa na verdade ajudar a reduzir o risco de desenvolver câncer no ovário e câncer colorretal, que são cânceres muito mais difíceis de serem detectados precocemente e muito mais letais, além de também reduzir o risco de câncer no endométrio.
Aí, com quase 40 anos, você enche o saco de tudo e resolve voltar para a pílula anticoncepcional. Claro, uma pílula apropriada para os meus sintomas, indicada por um médico, mantendo um estilo de vida saudável e estando muito atenta nos três primeiros meses de uso, que são o período de maio risco, após o qual a chance de um efeito adverso cai drasticamente. Pois bem, e não é que funciona? Com o passar dos meses, as espinhas internas enormes e doloridas vão secando e desinflamando, a pele vai ficando mais uniforme. O cabelo vai voltando a crescer na parte da frente, a queda diminui e os fios novos são mais grossos e menos espigados, a miniaturização dos fios vai ficando no passado. Eu não preciso mais me preocupar com aquela enxaqueca e cólica absurda na menstruação, o sangramento forte durante esse período e depois com os escapes ao longo de todo o mês. Posso emendar as cartelas, sangro muito pouquinho e esse período passa de forma bem tranquila. Também vejo os efeitos no meu corpo: eu voltei a ter a gordura mais distribuída nos membros inferiores, e desinchei um pouco nos superiores, com meu corpo voltando a ficar mais “feminino”. Os sintomas dos miomas e da adenomiose melhoraram muito. Fiz um ultrassom transvaginal e praticamente não tenho mais cistos nos ovários. E não vou mentir, o inchaço nos seios é bem aesthetic, apesar de poder deixá-los às vezes um pouco doloridos, o que deve ser acompanhado por um médico com cuidado.
Quem diria que, tendo uma síndrome caracterizada por hiperandrogenismo, o tratamento seria sim justamente usar uma pílula com ação antiandrogênica? Quem diria que um desequilíbrio hormonal com ação excessiva de testosterona precisaria sim de tratamento com hormônios femininos para aliviar os sintomas e amenizar este desbalanço?
Quem diria que, ao invés de sofrer e gastar rios de dinheiro e boa parte da minha energia e do meu tempo com um milhão de produtos e técnicas diferentes, apenas uma pílula por dia já conseguiria melhorar tanto a minha vida? Além, é claro, de garantir que eu não vou engravidar.
Sim, é óbvio que os sintomas irão voltar se eu parar de tomar a pílula. Eu tenho tireoidite de Hashimoto, meu corpo não produz hormônios tireoidianos em quantidade suficiente, e eu vou ter que tomar levotiroxina até morrer: se eu parar o tratamento, obviamente, todos os sintomas do hipotireoidismo irão voltar, porque o meu corpo precisa dessa fonte hormonal externa. Por que é que quando falamos dos hormônios sexuais femininos isso passa a parecer estranho?
Não, a pílula não “cura” a SOP, porque NADA cura a SOP. A medicina ainda nem entende plenamente os mecanismos dessa síndrome. O melhor que a gente pode fazer é fazer um tratamento adequado de modo a manejar os sintomas e melhorar a nossa qualidade de vida, enquanto vamos lidando com os efeitos colaterais. E isso é muito particular, e vai variar muito de pessoa pra pessoa. O corpo humano é extremamente complexo! Um medicamento antidepressivo pode ajudar a minha depressão e piorar a sua; o mesmo pode acontecer com a pílula. Não existe solução mágica, o que há são alternativas terapêuticas já bem estudadas pela ciência e com riscos conhecidos.
Sim, é claro que há efeitos colaterais. No meu caso, são realmente muito poucos: o principal é a diminuição da libido. E, para ser sincera, hoje eu nem vejo isso como um problema, e sim como uma grande fonte de paz mental. Quanto ao restante, continuam existindo os riscos cardiovasculares, e eu vou fazendo a minha parte para diminui-los, deixando de ser sedentária e tendo uma vida ativa com cardio e musculação. Mas isso é muito particular, e não quero invalidar outras experiências, apenas contar o meu relato: a ideia deste post não é dizer que os anticoncepcionais não têm riscos, é mostrar a minha experiência e apresentar de forma geral que é possível ter vários benefícios com o seu uso. Existem váaaaarias pílulas anticoncepcionais com diferentes composições e diferentes concentrações, cada uma mais apropriada para a necessidade de cada mulher, e um bom médico poderá te orientar.
Posted Jul 10, 2026, 5:59 PM UTC