Liberdade religiosa na China
Muitos cristãos têm a ideia de que na China é proibido ser cristão, e se você for na igreja ou tiver uma Bíblia, você arrisca ser perseguido e tal.
Não fomos nós que inventamos essa história. A gente não ganha nada inventando mentira sobre a China. Não muda em nada a nossa vida. Quem fez a gente imaginar a China desse jeito foram os missionários. Pessoas do Ocidente vão lá para pregar para os chineses, promover o conhecimento da mensagem cristã, convidá-los a se converter, distribuir Bíblias, e fundar igrejas para os novos cristãos. Mas elas voltam e contam como elas tinham que fazer escondido, no underground, cultos no porão, Bíblias contrabandeadas, vigilância policial, essas coisas.
Então, quando alguém diz que na China é tranquilo e tolerante, eu só posso concluir que todos esses missionários estão mentindo clamorosamente.
Ou talvez não. Talvez não estejam mentindo. Talvez sejam apenas concepções diferentes de liberdade religiosa. O defensor da China dirá: veja, não há perseguição, afinal, há igrejas, com imagens de Jesus, você pode ler a Bíblia em público e ter um crucifixo em casa, e isso não te causará nenhum problema.
Mas isso não é suficiente para os missionários. E nem pra mim. Ok, tudo bem, pelo que você me contou, ser cristão na China não é tão insalubre quanto sê-lo no Afeganistão. Mas ainda assim, conforme os próprios defensores da China ensinam, você precisa de permissão estatal para abrir uma igreja, tem que ser uma denominação já licenciada pelo Estado, a mensagem é fiscalizada por representantes do governo, não pode fazer evangelismo de rua, não pode distribuir Bíblias por aí, entre outras restrições.
Ou seja, o Cristianismo, embora nominalmente permitido, na prática só pode acontecer parcialmente. Você não pode dar uma expressão integral à sua religião (porque eu imagino que essas restrições se aplicam a toda religião), apenas às partes que forem liberadas depois de uma estrita sabatina do Estado. O governo certamente removerá (leia-se: censurará) as partes não palatáveis, e autorizará só a versão polida e adocicada da mensagem cristã (ou qualquer outra religião)
E, considerando que o Cristianismo tem como história central a execução de Deus nas mãos do Estado, acusado de conspiração contra o governo, eu imagino que a mensagem cristã precisaria de ser bastante alterada para ser aceita pelo governo. E o que restasse ainda seria o cristianismo total?
E além do mais, não importa se mudaria muito ou pouco. O que importa é que o governo está interferindo na religião, e decidindo o que pode ou não ser dito ou pregado. E você não precisa acreditar, e nem sequer gostar de alguma religião, para ser contra essa interferência. Todos nós já ouvimos aquela frase do Voltaire, que eu posso não concordar com uma só palavra sua, mas sempre defenderei o seu direito de dizê-la. Pois é isso aí.
Então, para concluir: Talvez você não vai pra cadeia chinesa por ter um crucifixo (ou uma menorá, ou um tapete para prece). Mas não importa: se você não pode convidar pessoas na rua para se converterem, nem fazer reuniões domésticas para ensinar qualquer doutrina, nem distribuir livros sagrados do seu próprio bolso, então você NÃO tem liberdade religiosa.
Uma analogia é: Nos EUA e no Brasil no século XIX, havia racismo muito sério, com escravos sendo açoitados e tal. Depois, no século XX, não era um racismo tão grave, porque as pessoas não estavam mais sendo vendidas ou apanhando, mas mesmo assim tinha um racismo muito grave. É por aí.
Opiniões?
Posted Jul 10, 2026, 7:24 PM UTC