Surpresas que acontecem nas manhãs de sábado
A Herança Voterna
— Vovó, quero ter uma herança voterna. Eu poço?
Foi assim que começou nosso sábado de contar histórias.
Eu lia para ela um conto sobre um papagaio muito esperto que morava numa garagem sem janelas. O maior sonho dele era ter uma janela para ficar “solando”.
— O que é “solando”? — ela perguntou enquanto contava a história.
— Ué… tomar sol!
Ela riu.
— Eu também quero ficar solando.
Sorri. Era uma palavra que não existia, mas que fazia todo sentido.
Foi então que veio a pergunta inesperada.
— Vovó, quero ter uma herança voterna. Eu poço?
Sorri outra vez.
— O que é uma herança voterna, meu amor?
Ela respondeu com a segurança de quem conhece todas as respostas importantes da vida:
— A mamãe tem herança materna. Eu quero voterna.
Demorei um instante para entender a lógica daquela palavrinha inventada. Se existia herança materna, por que não poderia existir uma herança da vovó?
Entrei na brincadeira.
— E o que você gostaria de herdar da vovó?
Ela nem precisou pensar.
— Suas histórias.
Naquele momento, percebi que existem heranças que não cabem em cofres, nem em escrituras. Passam de uma geração para outra sem advogado, sem inventário e sem assinatura.
São feitas de tardes preguiçosas, palavras inventadas, papagaios que ficam “solando” e avós que descobrem, pela boca dos netos, que histórias também são patrimônio.
Talvez a verdadeira herança voterna seja exatamente isso: deixar um pedacinho da imaginação morando para sempre no coração de quem amamos.
Posted Jul 11, 2026, 2:32 PM UTC