meu tio morreu.

Desabafo

Já fazem quase três anos.

Até hoje é difícil escrever esse título.

Meu tio sempre foi um exemplo para mim. Era a pessoa da família que eu mais admirava. Foi muito bem-sucedido, extremamente esforçado, carinhoso e tinha um dos maiores corações que eu já conheci. Foi ele quem escolheu o meu nome, quem me levou para viajar de avião pela primeira vez e quem mais me incentivou quando eu dizia que queria fazer faculdade. Mesmo morando longe, nossa família fazia questão de se encontrar no fim do ano, e aqueles poucos dias juntos eram suficientes para criar lembranças que guardo até hoje.

No ano em que ele morreu, eu estava no terceiro ano do ensino médio. Estudava para o vestibular da faculdade dos meus sonhos e fazia planos para o futuro. Depois das provas, eu passaria as férias na casa dele.

Mas uma semana antes do vestibular minha mãe me ligou.

Quando ela contou que ele tinha morrido, parecia mentira. Eu torcia para que fosse um engano, um pesadelo. Ficava olhando as fotos dele e nada parecia fazer sentido. Eu só conseguia pensar: “Por que com ele?”.

O mais difícil é que, no começo, ninguém nos contou o que realmente tinha acontecido. A pessoa que o encontrou desacordado não falou sobre as circunstâncias. Nós só sabíamos que ele estava internado havia cerca de duas semanas e em coma induzido. Como ele sempre foi uma pessoa saudável, eu acreditava de verdade que ele iria se recuperar. Esperava todos os dias por uma boa notícia.

Foi apenas no velório que eu entendi que não tinha sido uma morte comum.

Aos poucos, fomos descobrindo que ele fazia tratamento havia algum tempo e que, naquele dia, havia ingerido uma grande quantidade de medicamentos junto com bebida alcoólica. Foi um choque completamente diferente. Primeiro eu perdi meu tio. Depois eu perdi a imagem que eu tinha criado de como tudo tinha acontecido.

Durante muito tempo procurei respostas. A única pessoa que talvez pudesse explicar melhor era o namorado dele. Mas, depois da morte, ele simplesmente desapareceu. Nunca mais tivemos contato. Até hoje existem perguntas que talvez nunca sejam respondidas.

Eu também me perguntava o tempo todo o que poderia ter desencadeado aquilo. Ele era justamente a pessoa que parecia ter dado certo na vida. Tinha uma carreira, fazia acompanhamento médico, fazia terapia, tinha condições de cuidar da própria saúde. Era a última pessoa que eu imaginaria perder dessa forma.

Foi aí que eu entendi que sofrimento psicológico não escolhe quem vai atingir. Às vezes, a pessoa que parece estar melhor é justamente quem trava as batalhas mais silenciosas.

Depois da morte dele, senti como se a minha família tivesse se despedaçado.

Minha mãe ficou completamente abalada. Ela foi muito forte, mas eu consigo perceber que ela nunca mais foi a mesma desde aquele dia. Minha tia parece ter tentado seguir em frente rápido demais, como se fingir que superou fosse mais fácil do que viver o luto. Minha avó já não estava muito bem e, às vezes, acredita que ele ainda está vivo ou simplesmente esquece que ele morreu.

Três dias depois do velório, eu estava fazendo o vestibular da faculdade que sempre sonhei.

E eu passei.

Mas eu não consegui comemorar.

Eu só chorava.

Aquela conquista também era dele. Foi uma das pessoas que mais acreditou em mim. Ele sempre me incentivou a estudar e dizia que eu era capaz. Tudo o que eu queria era poder ligar para ele e contar que eu tinha conseguido.

Com 17 anos, me mudei sozinha para outra cidade para fazer faculdade. Foi um ano muito difícil. Além do desafio de começar uma vida completamente nova, eu ainda estava vivendo um luto enorme. Eu chorava quase toda semana de saudade dele e da minha família. Morria de medo de que as coisas dessem errado ou de ter feito a escolha errada. Parecia que eu tinha sido obrigada a crescer muito rápido, sem nem ter tido tempo de processar o que tinha acontecido.

Hoje tenho 19 anos. Falta pouco para eu me formar.

Uma das melhores decisões que tomei nesse período foi começar a fazer terapia.

A terapia não apagou a dor, mas me ajudou a dar um novo significado para ela. Ela me ensinou que eu podia continuar vivendo sem sentir que estava deixando meu tio para trás.

Depois da morte dele, também passei a ter muito medo de perder outras pessoas. Sempre que alguém que eu amo diz que não está bem, eu escuto de um jeito diferente. Acho que isso mudou para sempre a forma como enxergo a saúde mental.

Mas, quando penso nele hoje, eu prefiro lembrar da vida dele, não da morte.

Lembro dele me levando para conhecer a UFJF, onde ele estudou. Foi naquele passeio que eu percebi que também queria fazer faculdade. Anos depois, escolhi a UFPR e tenho certeza de que essa decisão também teve um pouco da influência dele.

Lembro das férias em família. Da risada dele, que era uma das coisas mais gostosas de ouvir. Do abraço apertado, que tinha gosto de casa. Da voz engraçada que ele fazia para imitar a minha mãe e fazer todo mundo rir.

Essas lembranças são muito maiores do que a forma como ele partiu.

Por muito tempo, senti que a morte dele também tinha matado uma parte de mim. E, de certa forma, isso é verdade. Nunca mais fui a mesma pessoa.

Mas, ao mesmo tempo, foi essa perda que me fez entender o quanto a vida é preciosa. Hoje eu tento ser a pessoa mais feliz que eu consigo. Quero construir uma vida que valha a pena ser vivida. Errei, aprendi, me arrependo de algumas coisas, mas tudo isso faz parte da pessoa que estou me tornando.

Nunca tinha contado essa história dessa forma para ninguém.

Se você leu até aqui e perdeu alguém, principalmente para o suicídio, eu sinto muito. Eu sei que existem perguntas que talvez nunca tenham resposta.

E, se eu puder deixar uma mensagem, é esta: procure ajuda quando precisar. Conversar, pedir apoio e fazer terapia não fazem a dor desaparecer, mas podem tornar o peso muito mais suportável.

Hoje, quando penso no meu tio, tento fazer com que a última lembrança dele não seja a forma como ele morreu, mas a forma como ele viveu. Porque, antes de tudo, ele viveu. E viveu sendo uma pessoa extraordinária que mudou a minha vida para sempre.

Posted Jul 27, 2026, 7:09 AM UTC

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