eu tive um sonho estranho e decidi escrever ele pra não esquecer mas achei a historia bem interessante vocês acham q eu devia continuar? escrevi como relato pq gosto mt de analog horror
Alguém sabe o que está acontecendo com os animais do zoológico
acordei com uma baita ressaca
Não sei se existe uma forma mais bonita de começar isso.
Minha cabeça parecia estar sendo apertada por dentro. Minha boca estava seca, meu estômago embrulhado e eu tinha aquela sensação nojenta de que ainda conseguia sentir o gosto da bebida da noite anterior.
Fiquei alguns minutos olhando para o teto.
Tentando lembrar quanto tinha bebido.
Não consegui.
Na verdade, parei de tentar.
Ouvi meus pais conversando no andar de baixo.
Isso me surpreendeu.
Era cedo demais para eles estarem acordados.
Ou talvez fosse tarde demais para mim.
— Micael!
Minha mãe.
— Já acordou?
Não respondi.
— Micael, anda! A gente vai perder a manhã!
Me sentei na cama.
Foi quando lembrei.
O zoológico.
Ela tinha comentado alguma coisa durante a semana. Meus pais queriam sair comigo. Só nós três.
Eu tinha prometido que iria.
Fazia meses que eu não fazia nada com eles.
Meses.
Meu trabalho, quando chegava em casa, eu bebia. Quando acordava, trabalhava. Nos dias em que não trabalhava, geralmente bebia mais.
Era mais fácil assim.
Não precisava pensar muito.
Desci as escadas.
Meus pais estavam prontos.
Meu pai estava com aquela camisa que ele só usava quando queria tirar foto. Minha mãe estava arrumada demais para alguém que tinha acabado de acordar.
Os dois pareciam felizes.
— Finalmente — meu pai disse. — Achei que teríamos que ir sem você.
— Foi mal.
Minha mãe sorriu.
— Vai se arrumar. Estamos esperando você.
Olhei para os dois.
Eles estavam realmente animados.
Eu não.
Mas tentei.
— Claro.
Subi novamente.
Troquei de roupa.
Antes de sair do quarto, abri uma gaveta.
Minha garrafa de saquê estava lá.
Fiquei olhando para ela.
Eu sabia que não devia.
Mas também sabia que, se fosse passar algumas horas conversando com meus pais, provavelmente precisaria.
Dei uma boa golada.
Fechei a gaveta.
— Só essa.
Eu sempre digo isso.
No caminho até o zoológico, o álcool começou a fazer efeito.
Ou talvez eu só estivesse mais confortável.
Consegui conversar.
Ri de algumas coisas que meu pai falou.
Minha mãe contou histórias que eu provavelmente já tinha ouvido umas cinco vezes.
Dessa vez eu prestei atenção.
Por alguns minutos, eu realmente estava me divertindo.
Foi estranho perceber o quanto eu tinha sentido falta daquilo.
Chegamos.
O zoológico estava cheio.
Crianças correndo.
Pais tirando fotos.
Gente comprando comida.
Tudo normal.
Até eu olhar para os animais.
Não sei explicar exatamente o que aconteceu.
Acho que foi com uma zebra.
Ela estava parada perto da cerca.
Eu olhei.
Tinha alguma coisa errada nela.
Uma das patas traseiras parecia ter uma articulação a mais.
Pisquiei.
Normal.
Olhei novamente.
Normal.
— Você está bem? — minha mãe perguntou.
— Estou.
Continuei andando.
Um macaco estava sentado numa pedra.
Ele tinha alguma coisa saindo do pescoço.
Pisquiei.
Nada.
Olhei para outro.
Parecia ter olhos demais.
Pisquiei.
Normal.
Comecei a ficar nervoso.
A bebida.
Tinha que ser a bebida.
Eu tinha tomado pouco.
Pouco demais para aquilo.
Pelo menos eu achava.
— Já volto.
Minha mãe me olhou.
— Aonde você vai?
— Banheiro.
— Está passando mal?
— Só um pouco.
Entrei.
A primeira coisa estranha foi a água.
Abri a torneira.
Ela caiu de maneira irregular.
Primeiro um fio.
Depois várias gotas.
Depois um fluxo forte.
Então parou.
Fiquei olhando.
Abri novamente.
Normal.
— Tá bom.
Joguei água no rosto.
Olhei para o espelho.
Minha cara estava horrível.
Olhos vermelhos.
Olheiras.
Barba por fazer.
Parecia exatamente a pessoa que eu esperava ver.
Peguei uma toalha de papel.
Foi quando percebi o secador.
Havia uma pequena tela nele.
Não lembro de ter visto aquilo antes.
Na tela estava escrito:
DIGITE A SENHA
Fiquei encarando.
— Que porra é essa?
Apertei o sensor.
Nada.
Toquei na tela.
Apareceram números.
Eu comecei a apertar combinações aleatórias.
Nada.
Tentei 1234.
Nada.
Nada.
A data daquele dia.
Nada.
— Abre, caralho.
Algumas pessoas olharam para mim.
Eu nem liguei.
Tentei outra senha.
Nada.
Mais uma.
Nada.
Então ouvi um clique.
Mas não veio do secador.
Veio da parede.
Olhei para o lado.
Uma parte do azulejo havia se aberto.
Um pequeno compartimento.
Eu não sabia que aquilo existia.
Fiquei parado.
Dentro havia um livro.
Uma Bíblia.
Peguei.
Era pesada.
A capa não parecia feita de couro.
Parecia...
carne.
Não sei explicar.
Era como tocar numa pele muito grossa que tivesse endurecido.
Havia um osso preso à lateral.
Ele segurava as páginas.
Abri.
As folhas eram amareladas nas bordas.
Mas a escrita era vermelha.
Vermelho vivo.
Não parecia tinta.
Não sei por que pensei isso.
Só pensei.
Fechei o livro.
Olhei para a porta.
Ninguém tinha entrado.
Coloquei na mochila.
Até hoje não sei por quê.
Eu deveria ter deixado aquilo lá.
Quando voltei, meus pais estavam esperando.
— Melhorou? — minha mãe perguntou.
— Um pouco.
Não contei sobre o livro.
Não contei sobre os animais.
Não contei sobre nada.
Continuei andando.
Mas agora eu sentia que todos os animais estavam olhando para mim.
Eu olhava para eles.
Eles pareciam normais.
Piscava.
Alguma coisa estava errada.
Piscava novamente.
Normal.
Comecei a andar mais rápido.
Minha mão foi até a mochila.
O livro ainda estava lá.
Eu conseguia sentir o peso.
— Eu preciso de uma bebida.
Fui para a área de alimentação.
Escolhi uma lanchonete.
Assim que senti o cheiro da comida, lembrei de quando era criança.
Naquela época havia um lanche que eu adorava.
Era um hambúrguer simples.
E vinha com uma carta colecionável de um animal do zoológico.
Eu colecionava aquelas cartas.
Não sei por que me lembrei disso.
Talvez porque estivesse tentando encontrar alguma coisa normal naquele dia.
— Moça.
A atendente levantou os olhos.
— Oi.
— Ainda tem aquele lanche das cartas?
Ela sorriu.
— Tem sim.
— Então me vê um lanche do tigre.
Parei.
— E uma cerveja.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Cerveja?
— É.
Ela deu de ombros.
— Tá.
A garrafa chegou primeiro.
Abri.
Dei uma golada grande.
Minha cabeça pareceu ficar um pouco mais silenciosa.
Esperei.
Eu não sabia mais o que pensar.
Talvez eu tivesse roubado aquele livro.
Talvez estivesse bêbado.
Talvez estivesse tendo algum tipo de crise.
Ou talvez...
Eu não queria terminar esse pensamento.
O lanche chegou.
Hambúrguer com bacon.
Batata.
E uma carta.
Sorri.
Peguei a carta.
TIGRE-DE-BENGALA
Era uma imagem simples.
Um tigre sentado sobre uma pedra.
Eu lembrava daquela carta.
Ou achava que lembrava.
Olhei para o desenho.
Então percebi os olhos.
O tigre estava olhando diretamente para mim.
Aproximei a carta.
A cabeça do animal parecia errada.
Muito errada.
O focinho estava comprido.
A mandíbula parecia dividida.
Havia dentes demais.
Muito mais dentes do que deveria haver.
E atrás da cabeça havia outra.
Uma segunda cabeça.
Eu deixei a carta cair.
— Moça.
Ela olhou.
— O que aconteceu?
— Essa carta.
Ela pegou.
— O que tem?
— O tigre.
— O que tem ele?
— Ele está deformado.
Ela olhou para a carta.
Depois para mim.
— Não está.
— Está.
— Micael...
Eu congelei.
— Como você sabe meu nome?
Ela apontou para o recibo.
Meu nome estava impresso nele.
— Ah.
Fiquei quieto.
Ela devolveu a carta.
— Talvez você devesse beber menos.
Ela riu.
Eu não.
Olhei novamente.
O tigre estava normal.
Quatro patas.
Uma cabeça.
Dois olhos.
Nada de errado.
Pisquiei.
Deformado.
Pisquiei.
Normal.
Meu coração acelerou.
— Não...
A atendente já tinha voltado para o balcão.
Eu fiquei olhando para a carta.
Não queria tocar nela novamente.
Peguei o hambúrguer.
Dei uma mordida.
Parei.
Não tinha gosto.
Ou melhor...
Tinha gosto.
Só não era o mesmo.
Eu lembrava daquele lanche.
Lembrava de achar aquilo delicioso quando era criança.
Agora era só carne, pão e bacon.
Tomei outra golada da cerveja.
Olhei para a carta.
Normal.
Respirei.
Talvez fosse só álcool.
Talvez tudo aquilo fosse só álcool.
Então vi uma coisa escrita na parte inferior da carta.
Uma frase.
Em vermelho.
Eu tenho certeza que não estava ali antes.
O PECADO TAMBÉM TEM FOME.
Parei de respirar por alguns segundos.
Pisquiei.
A frase sumiu.
Olhei novamente.
Nada.
Apenas o desenho do tigre.
Normal.
Coloquei a carta sobre a mesa.
Minha mão tremia.
Olhei para a mochila.
A Bíblia estava lá.
Eu conseguia sentir o peso dela.
Não sei por que tive aquela sensação.
Mas naquele momento pensei uma coisa que ainda hoje me dá arrepios.
Talvez eu não tivesse encontrado aquela Bíblia.
Talvez...
ela tivesse me encontrado
Posted Aug 13, 2026, 4:55 PM UTC