Minha vida é um tanto quanto esquisita.
Não sei por quê passei por tanta coisa estranha e ainda passo.
Quando eu nasci, eu nasci muito pequeno e com icterícia neonatal, fui retirado da minha mãe e colocado em uma luz artificial forte.
Acho que essa experiência em tenra idade me trouxe marcas, eu demorei mais que os outros para andar e para falar.
Para piorar, na minha infância tive outra doença, epiglotite aguda, minha garganta se “fechava” e eu não conseguia respirar.
Eu sempre achei que ia viver pouco, comecei a ficar triste e melancólico e alimentava minhas energias negativas por falta de sentido em minha vida, que eu achava que seria breve.
Um dia eu acordei e vi um garoto brincando no meu quarto de costas, eu pensei que estava dormindo, aí fechei o olho e abri de novo, ele estava lá.
Falei:
— Quem é você?
Ele deu uma risada curta e saiu correndo para o corredor, hoje eu percebo que ele deve ter meio que levitado, pois foi muito rápido e eu não escutei os passos.
Eu não consegui ir até o corredor e gritei pela minha mãe.
Ela falou que era só um pesadelo.
Então eu comecei a ver vultos constantes, mas eles apareciam e sumiam rápido.
Depois comecei a ver pessoas, tipo, um dia eu vi um homem bem esquisito de cadeira de rodas me olhando, aí olhei de novo e ele não estava lá.
Eu não gostava de falar disso com ninguém porque todo mundo ficava me olhando esquisito, eu não achava que era fantasma, afinal, um fantasma pode andar de cadeira de rodas?
Achava meio sem sentido.
Mas eu continuava a ver e geralmente eram pessoas com olhares tristes que ficavam me olhando, mas desapareciam rápido.
Eu não me sentia bem e não me sentia mal quando tinha essas visões, na verdade, pensando melhor agora, todas essas pessoas que eu vi pareciam que estavam “perdidas”.
Minha casa começou a ter visitas indesejadas de animais peçonhentos.
Moscas pareciam me seguir mesmo que eu tomasse vários banhos no dia.
Um dia eu acordei, quando fui beber água, notei que minha casa estava com uma névoa fina em todo o canto, eu fui no quarto dos meus pais e ninguém me respondeu, eu não consegui abrir a porta, voltei para o meu quarto e parecia ter uma barreira invisível que não deixava eu entrar lá, eu escutava barulhos, pareciam de bichos, estalos de língua, era uma coisa totalmente bizarra, tinha vozes parecendo humanas no meio, mas era de um idioma que eu nunca ouvi.
Fiquei com medo e tentei voltar e chamar meus pais, mas não me atendiam e a porta não abria, percebi que a porta da sala estava aberta, aí eu corri para a rua para pedir ajuda para o vizinho.
Quando eu saí e corri, foi meu pior erro, a névoa intensificou tanto que eu não conseguia ver nada à minha frente, eu fiquei perdido perambulando sem saber como voltar.
Então deu um estalo na minha cabeça:
Eu morri.
Aí, em vez de me desesperar, eu só sentei, fiquei chorando por muito tempo e depois fiz algo que eu acho que fiz no máximo 3 vezes na minha vida inteira, eu orei.
Fiquei orando não para mim, mas para minha família, que eles não fiquem muito tristes com a minha perda.
Não sei quanto tempo eu orei, mas sei que foi minha oração mais verdadeira até hoje.
Quando eu senti alguém tocando meu ombro.
Aí eu acordei totalmente desesperado de volta para o meu corpo, meu desespero não era do pesadelo, era porque eu não estava respirando, comecei a coçar minha garganta desesperado quando finalmente o ar entrou... fiquei um bom tempo tentando recuperar as forças, parecia que tinha sido atropelado por um trem e estado debaixo d'água por um tempo infinito.
Era para ter sido boa essa experiência, afinal, eu não tinha morrido como eu achava, talvez tivesse sido só um pesadelo.
Que nada... piorou... eu tenho insônia severa até agora, tenho medo de dormir e perder o ar e morrer durante o sono.
Na adolescência piorou ainda mais e eu comecei a ser ainda mais obscuro, gostava de coisas mórbidas, alimentava meu lado feio, eu odiava Deus por ter me dado uma vida tão sofrida e doente.
Quebrei quatro vezes meu braço e passei quase dois anos em um hospital e não recebia visita de ninguém.
Só minha mãe que ficava ao meu lado, mas ela era superprotetora e isso meio que me sufocava.
Sempre acordava de madrugada com um som de um mugido, mesmo não tendo gado aonde eu morava.
Um dia eu estava com meu sobrinho no colo, ele ainda era muito pequeno e ele ficou com o olho arregalado olhando para trás de mim, e ficava falando:
— Boi... boi... boi.
Eu morri de medo nesse dia, para piorar eu comecei a usar drogas, porque eu era um jovem que sofreu muito bullying e as drogas tiravam minhas travas e eu conseguia me socializar com os outros, até tive namoradas e amigos, mas a maioria era por causa que estava na noite e só queria se divertir, eles não se importavam comigo, tanto que depois que saí dessa vida eu só tenho 3 amigos e mesmo assim não falo mais com eles, pois deletei minhas redes sociais.
Um dia estava voltando de madrugada bêbado com uns cachorros de rua me seguindo, não sei por que cachorros de rua costumam seguir mendigos, bêbados e drogados, eu era um pouco disso tudo, então muitos cachorros me seguiam. Eles começaram a latir para uma rua, eu olhei e no meio da escuridão eu conseguia ver apenas duas luzes vermelhas, como se fossem olhos, não tinha nada, só aquilo flutuando ao longe.
Eu corri pra caralho aquele dia.
Depois de um tempo eu tive coma alcoólico e quase morri de frio porque desabei no meio do mato na madrugada.
Depois disso eu não vejo mais nada, eu bebo muito menos e em muito tempo eu só tive 1 recaída com drogas.
Eu não sou mais um menino doente, mas ainda tenho sequelas na cabeça por tudo que eu passei.
Mas, estando no fundo do poço, eu aprendi uma coisa.
Que os dias comuns, que uma simples rotina, é algo muito, MUITO, bom.
A vida simples e que muitos acham chata e sem graça é quase o céu comparado ao inferno que muitas pessoas vivem.
Posted Sep 11, 2026, 3:36 PM UTC