O brasileiro se acostumou com a miséria e passou a chamá-la de normalidade
Existe um fenômeno particularmente perverso no Brasil: a capacidade de transformar precariedade em parâmetro de satisfação. Não basta viver mal, é preciso ainda agradecer porque poderia ser pior. Serviço ruim vira privilégio porque antes não existia, salário miserável vira oportunidade porque existe desemprego, transporte precário vira conquista porque pelo menos passa algum ônibus. Aos poucos, a comparação deixa de ser entre aquilo que temos e aquilo que seria minimamente digno e passa a ser entre aquilo que temos e a absoluta desgraça. Quando esse é o padrão, qualquer melhora medíocre parece excelência.
O SUS talvez seja um dos melhores exemplos dessa lógica. Sua existência é uma conquista enorme. A Constituição estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado, com acesso universal e igualitário, e o sistema atende desde atenção básica até procedimentos de alta complexidade. Antes da universalização promovida pela Constituição de 1988, a assistência médico-hospitalar pública estava fundamentalmente vinculada aos trabalhadores ligados à Previdência, enquanto grande parte da população dependia de instituições filantrópicas ou do setor privado. Nada disso, porém, transforma automaticamente a qualidade atual do atendimento em satisfatória.
Esse é o ponto que parece gerar uma dificuldade quase incompreensível em algumas discussões: uma coisa pode ser indispensável e ainda funcionar muito abaixo do que deveria. “Mas antes era pior” não é uma avaliação da situação presente. É apenas uma comparação histórica. Se alguém esperava dez horas por atendimento e agora espera cinco, houve uma melhora de 50%. Continua sendo perfeitamente legítimo perguntar por que caralhos ainda são cinco horas. Melhorar não significa chegar a um padrão aceitável.
O próprio poder público reconhece gargalos importantes. O Ministério da Saúde mantém programas especificamente voltados à redução de filas, ampliação de consultas especializadas, exames e cirurgias, além de iniciativas recentes para aumentar a presença de especialistas em regiões com déficit e reduzir tempos de espera. Em outras palavras, a existência de filas e dificuldades de acesso à atenção especializada não é alguma invenção de quem critica o SUS. É um problema suficientemente concreto para produzir políticas nacionais destinadas justamente a enfrentá-lo.
E é aí que aparece essa estranha relação brasileira com a precariedade. Você aponta um problema no SUS e alguém responde “mas pelo menos nós temos SUS”. Sim. E? Uma coisa não responde à outra. É como reclamar que o teto da sua casa está vazando e ouvir “pelo menos você tem teto”. Tecnicamente verdadeiro, intelectualmente inútil. A existência do teto não conserta a goteira, assim como reconhecer a importância do SUS não obriga ninguém a tratar suas deficiências como aceitáveis.
Na realidade, essa mentalidade pode até ser contraproducente para aquilo que pretende defender. Se o SUS é importante, então há ainda mais razão para exigir que funcione bem. Defender uma instituição não deveria significar blindá-la contra críticas, mas exigir que ela cumpra aquilo que promete. A própria legislação do sistema prevê universalidade, integralidade e igualdade de assistência. Cobrar atendimento digno, acesso razoável e funcionamento eficiente não é atacar esses princípios. É levar esses princípios a sério.
O problema maior, portanto, não é exclusivamente o SUS. É o padrão mental. Acostumamo-nos tanto com pouco que começamos a considerar ingratidão desejar mais. Qualquer crítica à precariedade recebe como resposta um lembrete de que existe alguma situação ainda pior. E assim a régua vai descendo: não importa se está bom, basta não ser o fundo absoluto do poço.
Talvez a pergunta correta não seja “é melhor do que antes?” ou “é melhor do que não ter nada?”. Quase qualquer coisa consegue vencer uma comparação suficientemente miserável. A pergunta deveria ser: isso está funcionando tão bem quanto razoavelmente poderia e deveria funcionar?
Porque “melhor que nada” é uma ótima descrição de sobrevivência. Como projeto de sociedade, é uma ambição vergonhosamente baixa.
Posted Sep 21, 2026, 6:19 PM UTC