Individualismo

Originais

É a minha hora de almoço. É minha em completo e perfeito direito. É minha até que os colegas voltem. E quando voltarem serão então uma fanfarra amadora de Nova Orleães a tocar pela alma da minha enclausurada paz.

Esta é uma altura para respirar e ter o tipo de liberdade que existia num quarto nos anos 2000's. Naquele tempo costumava sentir o tempo, sentia-o a flutuar como um nevoeiro a dançar lentamente ao sabor de ideias e frustrações vagas. Dava por mim a ouvir em repeat o  "self-titled" dos Violent Femmes (em CD, claro!), durante horas enquanto repetia a leitura de algo aleatório: as BD's do Jim Del Monaco ou do Calvin & Hobbes, os livros do Senhor dos Aneis, os livros do Gonçalo Cadilhe, e tudo aquilo que o meu indicador descobrisse na estante. Intercalando com um cigarro ou outro que, nos pulmões limpos e mente vulnerável, me dava uma excitação apaziguadora. Passei muitas das minhas tardes assim...

De certa forma penso que isso moldou-me irreversivelmente. A minha forma de lidar com o tédio e solidão foi obviamente abalada pelo cariz instantaneo que caracteriza os 2010's. Mas ver o tempo a pairar é algo que me dá prazer. Ovo ou galinha?! Terei eu um prazer saudosista, como uma memória idealizada de um primeiro amor? Ou, por outro lado, a dinamica que criei naquela altura é uma curva na impressão digital que é a minha personalidade?

Contudo, sinto-me diluido. A paixão vive da atração que temos por aquilo que não conhecemos bem. Nesse sentido, e depois de desilusões e decepções nos fazerem adultos, a paixão deixou de ser uma ode à descoberta e passou a ser uma afirmação pirosa e ingenua.

Já não há paixão porque já não há ansiedade e expectativa? Será isso? Como é possível que o futuro tenha tornado tudo mais acessível e, contudo, nos tenha tornado menos receptivos?

"Duuuuude, chill com essa marmita" digo baixinho, a evitar causar eco e em apropriação ao trabalho dos irmãos Coen. A "We used to wait" dos Arcade Fire chega ao fim, e a merda dos anúncios do Youtube, estridentes como só eles, pedem-me para os calar com outra coisa qualquer. Algo que desperte outra sensação, talvez algo menos denso em saudosismo, talvez algo mais upbeat e comercial, talvez algo mais mindless... Clico numa das sugestões que o Youtube me oferece fruto de momentos idênticos (Avé a ti, ó grande Algoritmo youtubiano).

Entretanto oiço a "Drown" dos Smashing Pumpkins, seguida da "Gone for good" dos Shins, depois a "This must be the place dos Talking Heads". Todas elas a trabalhar em mim determinadas dissertações isoladas sobre a vida e o mundo, à semelhança da "We used to wait". Torna-se engraçado: o tédio é um barquinho a flutuar no tempo que é a hora de almoço, ao sabor do vento que é o fantástico algoritmo youtubiano.

E sim, penso  (e projeto-o para o futuro) que nunca mudarei significativamente.

Chega entretanto a fanfarra enquanto eu oiço a categórica e celestial (adjetivo roubado de ler comentários youtubianos) Eclipse dos Pink Floyd.

E como um apaixonado no após de um bonito pôr-do-sol, recolho-me para ser uma outra coisa qualquer aparentemente mais objectiva.

Posted Jun 4, 2019, 3:11 PM UTC

60
Loading comments…