Dor de Barriga
Dona Cremilda achou estranho, à noite, o gosto um pouquinho acre daquela macarronada do almoço, que sobrara. Mesmo assim, passou pra dentro. Ela lembrou de um mendigo, perto da casa dela, que comia macarrão da lata de lixo de um restaurante e nunca sentia uma dor na unha. Por que ela, também humana, também brasileira, também comensal, poderia ter?!
Apenas seis horas depois, sua barriga deu sinais de ronquidão, sob dolorosas contrações. E em sequência peidos quentes, úmidos e fétidos vieram à tona. Ela viu que aquilo não era bom! E o pior é que no dia seguinte, tinha que ir sem falta na Assistência Social da prefeitura renovar o Bolsa Família, pois caso perdesse o recadastramento, correria o risco de ter o benefício cortado. "Deus me livre", ela pensou, "nem que eu tenha que cagar nos pés da assistente social da prefeitura, eu tenho que ir renovar esse negócio!"
De madrugada a dor se intensificou. E mais peidos podres saíram. Naquela hora, ela deu graças a Deus ser divorciada, ou teria levado sérias broncas do marido — além da vergonha com as flatulências tão putrefatas. Foi ao banheiro, mas era apenas dor. Nada de merda sair. Por mais força que fizesse e paciência que tivesse, nada. Eram as fezes ainda em um turbulento e malfadado processo de produção. E o pior que faziam já dois dias que ela não cagava. Aquela porra estava acumulada em seu interior. Tinha ali, então, uma bomba atômica prestes a estourar — merda de dois dias acumuladas à merda nova do dia anterior: três dias de merda, portanto.
Na manhã seguinte, ela levantou-se logo cedo. A barriga doía levemente e os peidos tinham rareado. Ela achou que estaria bem. Evitou comer e saiu em jejum. Porém, mal andou seis quadras, uma dor lancinante acometeu suas entranhas. Os movimentos peristálticos fazendo efeito. Ela lembrou de ter tido dor semelhante, quando foi parir Rafael, há 27 anos. A dor chegou a um ponto que não dava mais para suportar. Ela sentia que o cocô já estava na parte final do reto: há dois dedos e meio da parte rugosa. Então, olhou pra um lado e para outro, não havia vivalma. Agachou-se, pois, ali mesmo na calçada de uma casa e só deu tempo de tirar a calcinha. Explodiu em merda, produzindo um estrondo e um odor nunca visto antes vindo de um ser humano. Uma nódoa marrom tingiu um quinto da calçada da cada da mulher. Tudo não durou mais que cinco segundos. Ela usou a própria calcinha pra limpar o bumbum.
Agora dois alívios reinavam: o da dor na barriga e o de ninguém ter visto tal cena. Mas... As câmeras de segurança da casa cagada viram tudo.
Posted Jan 14, 2026, 12:08 AM UTC